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JOGANDO COM O AMOR

DANAH

danah_muller@hotmail.com

 

Capítulo 24: Esclarecendo tudo...


Falar com Murilo não foi tão ruim quanto Rachel pensava. No fundo o nadador já esperava que a garota lhe dissesse não. Só se apegava a esperanças vãs, por gostar demais da companhia da levantadora.
-Quem é o sortudo, Rachel? - ele ainda perguntou.
A garota olhou surpresa.
-Como assim?
Murilo sorriu.
-Eu sempre achei que você estava apaixonada por outro cara. Ficava sempre distante, pensamento longe. Agora te vendo decidida assim, eu tive certeza.
Rachel se achou a mais torpe das criaturas. Até o próprio nadador percebera seu distanciamento. Ela devia mesmo ter acabado com aquilo mais cedo.
-Eu gostaria mesmo de te pedir que fossemos amigos - disse - Mas vou entender se não quiser.
Ele fez que tudo bem.
-Preciso de um tempo, Rachel. Pra me desvincular de você e do ainda sinto por ti. Mas fique tranqüila. Eu te procuro sim. Também quero a sua amizade.
-Fico feliz que tenha entendido tudo, Murilo. Pode não parecer, mas minha intenção nunca foi magoar você.
-Eu sei, Rachel. Fico triste que não tenha ao menos me dado uma chance, mas quero mesmo que seja feliz - disse ele sorrindo -Fala pra esse carinha cuidar direito de você, ou vai ser ver comigo!
Rachel sorriu. Esperava que o ‘carinha’ fizesse bem mais que cuidar dela. Queria que ‘ele’ a amasse e a fizesse a mais feliz das criaturas.
Mesmo animada com a resolução de seu problema com Murilo, a levantadora sentiu-se um tanto triste. Não esquecia o olhar desanimado do rapaz ao saber a verdade. Havia muita tristeza ali.
Talvez por saber que seria assim, Rachel tivesse adiado tanto essa conversa. Não sentia desejo físico por Murilo. Todo seu corpo e seu tesão pertenciam exclusivamente a Isabel. Mas gostava da companhia do nadador. Era um bom amiga, apesar de tudo.
A primeira parte do que se propora a fazer, mágoas a parte, tinha dado certo. Agora ela tinha a dura missão de fazer Isabel perdoá-la. E aquilo a consumia por dentro. Não queria pensar na possibilidade de levar um não, embora soubesse que essa existia. Tinha que esforçar-se a pensar positivo. Ou acabaria enlouquecendo por antecipação.
Pelo menos uma coisa, Rachel já decidira. Iria lutar. Faria o que fosse preciso para ter o amor de Isabel de volta. E mesmo que esta jurasse que não a queria mais, ela insistiria. Finalmente ela tinha começado a perceber, que mais valia perder seu orgulho, que deixar a felicidade lhe escapar.
***
Ed não visitava Rebeca há algum tempo. Estava morrendo de saudades, mas queria que ela também sentisse sua falta e ansiasse por sua presença. Por isso não ligara nem nada.
Ficou muito feliz ao receber um telefonema dela no meio da aula.
-Você ainda está chateado comigo? - perguntou a secretária um tanto temerosa.
-Não, Rebeca. Só estive muito ocupado esses dias. Desculpe ter sumido.
-Hoje você vai estar ocupado também? Queria mesmo te ver e conversar.
-Não estou ocupado hoje. Mas você sabe que eu quero bem mais que isso com você!
-Eu sei. É justamente sobre isso que eu quero conversar.
O rapaz suspirou. Por quer mulheres tinha que dialogar sobre tudo? Precisava ser paciente.
-Tudo bem, Rebeca. Eu passo ai mais tarde.
-Sua prima vem aqui hoje. Vai levar a Duda para conhecer a livraria! Bom que ficamos mais à vontade.
Ele quase não se contendo em ficar perto dela e a mulher falando de ‘ficar mais a vontade’? O rapaz sorriu. Aquela tarde prometia grandes surpresas.
-Eu combino com a Bel, e apareço ai. Tá?
-Tá. Vou ficar esperando.
-Tchau!
-Té mais tarde.
Enquanto Ed sorria feliz ao desligar o celular. Rebeca se perguntava se fizera a coisa certa com o telefone ainda na mão. Não sabia o que aquele garoto tinha, mas ela simplesmente não conseguia esquecê-lo. Só esperava que estivesse tomando a decisão certa.
***

Isabel estava deitada no quarto lendo, em um dos seus raros momentos de folga, quando ouviu baterem na porta. Achando se tratar de Ed ou mesmo do irmão, a garota disse sem nem se voltar:
-Entra!
A porta foi aberta e bastou o perfume floral invadir o quarto, para a atacante saber que acabara de entrar. Rachel.
Isabel se sentou na cama e voltou seu olhar para a garota ali parada, encostada na porta do quarto. Rachel estava linda. A saia branca ficava perfeita sobre a pele bronzeada, e a blusa verde de alcinha, combinava com a tonalidade dos olhos. Os cabelos loiros estavam presos num rabo-de-cavalo.
-Oi! - ela disse simplesmente quebrando o encanto hipnótico que sua imagem tinha causado em Isabel - Seu irmão disse que eu podia subir!
-Senta! - disse a atacante apontando a poltrona - Não esperava te ver aqui!
Rachel aceitou o convite de Isabel e sentou-se. Ela ficava tão linda com aqueles shortinhos de dormir! Seus olhos teimavam em devorar aquelas pernas à mostra.
-Eu sei que você não quer muito papo comigo. Mas precisava falar com você - começou a levantadora - Sei que não tenho agido bem e....
A própria Isabel se surpreendeu com sua reação. Mas como ela podia ficar ali sentada diante daquela coisa linda e não ter gana de agarrá-la? O beijo foi mais que inevitável entre elas.
Rachel mal teve tempo de largar a bolsa e Isabel já estava de joelho na frente dela, beijando-a apaixonada. As mãos da levantadora a abraçavam carinhosamente, e as pernas dela se abriram para possibilitar uma proximidade mais prazerosa.
Os beijos variaram entre cheios de desejo e singelos. As bocas não querendo mesmo se separar ou se afastar uma da outra.
A levantadora deteve as mãos de Isabel, quando essas invadiram sua saia.
-Bel, pára! Temos que conversar!
-Depois! - disse a outra a beijando com urgência - To morrendo de vontade de você, agora!
Rachel sorriu. Isabel era sempre tão carnal daquele jeito desesperado, que lhe deixava com ainda mais tesão. Segurando o rosto dela entre as mãos, a levantadora encarou-a séria.
-Vamos conversar, Isabel. Sério. Não quero ficar mal com você de novo!
Um tanto emburrada a atacante concordou. Usou toda sua força de vontade para sair de perto de Rachel e tornou a sentar-se na própria cama.
-Tudo bem! Estou aqui te ouvindo. Pode falar à vontade! - disse abrindo os braços.
-Você não precisa ser irônica comigo, ta? - falou Rachel se recompondo do momento anterior - Vim aqui pra gente tentar se acertar de vez!
-Falou com Murilo? - perguntou a atacante objetiva.
-Falei. Terminamos algo que nem tínhamos de fato.
-E como eu vou saber que você confia em mim agora?
-Eu não sei como. Mas confio. Vim te pedir desculpas por ter desconfiado de você. Sua amiga me procurou e esclareceu tudo.
-Minha amiga? - perguntou Isabel sem entender.
-Roberta esteve na minha casa. Conversamos sobre você.
Aquilo surpreendeu a garota. O que Roberta tinha ido fazer lá?
-Eu não sabia que ela...
-Eu sei, Bel! - interrompeu Rachel - Ela me disse que você não sabia de nada.
-E o que mais ela te disse? - indagou a outra curiosa.
-Que você foi visitá-la para ajudá-la com a sua prima - disse Rachel - Eu vim aqui, antes de qualquer coisa, te pedir desculpas por não ter acreditado em você. Só de pensar em você estar com ela, fiquei cega de ciúmes!
-É foi sim.
-Mas você também podia ter me contado a verdade, né? Que teimosa você é, Isabel! - falou a levantadora sorrindo.
Para sua felicidade a atacante também sorriu.
-Eu sei. É que fiquei chateada por você ter me espionado. Promete que não faz mais isso?
Rachel fez que sim.
-Prometo. Mas tem mais uma coisa que eu quero saber de você.
-Pergunte. Não quero mais segredos entre nós.
-Hum! Me diga o que está havendo entre você e a Malu. Eu sei que saíram juntas e percebi os olhares dela pra você durante os treinos.
Isabel ainda pensou em desconversar, mas achou melhor contar a verdade. Levantou-se, e colocou a fita que tinha gravado pra tocar.
-Entre eu e ela não há nada, Rachel - disse apontado pra televisão - Só armamos uma pra ela. Eu e o Ed.
Rachel olhou o vídeo e depois voltou-se para ela chocada.
-Você filmou a Malu transando com o seu primo, Bel?
Isabel fez que sim, sorrindo da cara de espanto da levantadora.
-Eu te disse que ela ia pagar pelo que tinha te feito, não disse? Não podia simplesmente deixar como estava.
-Mas, Bel, a gente nem se conhecia quando aquilo aconteceu! Eu nunca te pedi pra fazer isso, pedi?
-Eu sei que não. Mas eu tinha que fazer. Pra ela saber que não pode mexer com você e se safar barato. Não se preocupe Rachel, não mostrei o vídeo para ninguém. Ainda. Depende do comportamento dela isso continuar assim.
A levantadora não pode deixar de sorrir.
-Você teve esse trabalho todo por mim?
Isabel também sorriu.
-Não foi trabalho algum. Eu faria o que fosse preciso pra defender você!
Rachel não pode se conter. Adorava aquele jeito protetor que ela tinha. Sempre tão cuidadosa e atenciosa. Ficava ainda mais irresistível assim. Correr para aqueles braços foi quase automático.
Isabel abraçou-a rindo. Ah como gostava daquele corpo quente, assim, pertinho do seu. As peles se tocando, sentindo aquele cheiro gostoso de xampu, segurando nas mãos macias e sentindo Rachel repousar tranquilamente sobre seu próprio corpo.
Ficaram ali horas. Rachel sentada de costas entre as pernas de Isabel, a cabeça delicadamente pousada sobre os seios da atacante, que lhe acariciava os cabelos com uma das mãos e encaixava a outra na sua. Nada mais lhes importava quando ficavam naquela forma tão íntima.
-Bel, me diz uma coisa.
-O que?
-O emprego na livraria, também foi idéia sua? - indagou Rachel mesmo já sabendo a resposta.
-Foi. Não te falei nada porque sabia que você não ia me deixar te ajudar. Orgulhosa como você é! Mas ouvi parte de sua conversa com a Hélen. E não queria mesmo que você deixasse de jogar por causa de dinheiro.
-Você sabe que a minha mãe me contou tudinho né? - disse Rachel rindo - Acho que ela queria que eu me aproximasse de você, ou ao menos agradecesse pelo que tinha feito.
-Rachel! - exclamou Isabel fingindo-se de indignada - Não acredito que você sabia de tudo esse tempo inteiro e me deixou acreditar que não sabia de nada!
A levantadora fez que sim e virou-se para beijá-la rapidamente.
-Eu fiquei ainda mais apaixonada por você quando me contaram a verdade. Não quis te constranger, mostrando que já sabia que tinha sido você!
-Muito espertinha a senhorita! - disse Isabel começando uma sessão de cócegas.
Logo as duas estavam deitadas na cama, rindo a valer, uma querendo escapar das cócegas da outra.
-Eu podia passar o resto da vida assim com você! - disse Rachel sorrindo pra Isabel.
-Assim fazendo cócegas em mim? Que maldade, Rachel!
A levantadora sorriu.
-Assim na sua cama, sua boba! Deitada com você!
-Hummm....só deitada é?
Rachel riu e puxou-a para si.
-Só te amando, sem enjoar! - disse antes de se beijarem.
As duas estavam ali deitadas, o corpo de Rachel sobre Isabel. Se beijando apaixonadamente, quando a porta do quarto se abriu. Era Ed.
-Ops... - disse ele sem jeito - Desculpa! Eu não fazia idéia que vocês estavam assim!
Os três se encaram e caíram na risada. Rachel saiu de cima de Isabel e as duas se sentaram na cama.
-Tudo bem, Ed. - disse Isabel - Não precisa fazer essa cara!
Rachel estava um tanto envergonhada. Ser pegue assim quase no flagra por Ed não era o que ela esperava. Mas depois de ter visto parte do vídeo dele com Malu, ela achara que saíra no lucro. Ainda estavam vestidas e tudo mais.
-Desculpa mesmo, Bel. É que a Rebeca disse que você ia sair com a Duda hoje e eu queria combinar da gente ir junto. Pode ser?
-Vixe, acredita que eu esqueci completamente que ia sair com a Duda! - exclamou Isabel se levantando e voltando-se para Rachel - Você quer vir comigo? Eu vou levar a minha irmã pra conhecer a livraria, dar uma volta no shopping.
A levantadora sorriu pelo convite.
-Claro que sim, Bel. Só não quero atrapalhar o programa entre irmãs.
Isabel fez que não.
-Você nunca atrapalha, sua boba. Eu quero que vá conosco - disse a garota segurando a mão de Rachel.
-Bom, que horas nós podemos sair? - quis saber Ed - Ainda tenho que me arrumar.
-Daqui a meia hora? - perguntou Isabel olhando para Rachel, consultando-a com o olhar.
-Por mim tudo bem! - falou a loira.
-Então tá combinado. Também vou tomar um banho rápido e saímos.
Quando Ed fechou a porta do quarto, foi inevitável as duas se olharem sorrindo.
-Vamos ao banho? - convidou Isabel piscando maroto.
Rachel fez que sim.
-Pensei que não ia convidar nunca! - disse a levantadora se abraçando a atacante e indo matar as saudades que sentiam uma da outra no banho.

 

Capítulo 25: Amor..sublime Amor...
 

Para Isabel passear com a irmã já fora maravilhoso. A menina sempre curiosa, parando para ver e sempre querendo mexer em tudo. Mas naquele fim de tarde, ela estava ainda mais feliz, pois estivera com Rachel ao seu lado.
As duas tinham andado juntas pelo shopping, Duda entre elas, segurando suas mãos com as mãos miudinhas dela. Sorridente e se divertindo como nunca.
Tomaram sorvete, comeram pipoca, brincaram na piscina de bolinhas, beberam refrigerante e Duda ainda ganhou chocolates de presente de Rachel. Isabel não pode deixar de pensar que Rebeca reprovaria aqueles mimos todos. Mas sabia que a secretária devia estar com os pensamentos longe da filha no momento. Ed estava com ela. E a atacante torcia para que tudo realmente se ajeitasse entre eles.
Isabel ficara realmente surpresa com o envolvimento dos dois. Nunca pensou que Rebeca se interessaria pelo primo. Ela fazia o estilo que curtia homens mais velhos, mas parece que Ed tinha conseguido cativá-la.
E pelo visto a conversa dos dois estava sendo bem longa, pois fazia horas que ela e Duda tinham chegado a sua casa. A menina já ressonava na cama da irmã.
Rachel tinha ido pra casa pouco depois de chegarem. Precisava terminar umas resenhas para o dia seguinte e não cedeu aos pedidos suplicantes de Isabel, para que dormisse com ela.
-Eu bem queria, Bel! - disse a levantadora sorrindo e abraçando-a - Mas hoje não dá mesmo!
Isabel a olhou triste.
-Vai me deixar carente de você a noite toda? - perguntou.
-Isabel! - exclamou Rachel rindo - E o que foi aquilo no banho hoje? Quem te houve pensa que faz dias que a gente nem se toca!
-Ah, meia hora de banho, meu anjo? Fala sério! Meia hora não é nem aperitivo com você! - explicou a atacante sorrindo - Eu sempre preciso de mais e mais. Horas e horas pra me saciar, momentaneamente, de você!
Rachel não resistiu à afirmação e a beijou com vontade.
-Você é muito linda, sabia? - perguntou - E esse seu jeito tarado me deixa com muito tesão!
-Humm...viu? - disse Isabel a abraçando forte - Mais um motivo pra você ficar!
A levantadora se esforçou muito para se desgrudar e sorriu.
-Prometo que fico com você amanhã. Mas hoje não dá! - falou já pegando a bolsa para ir embora. E se voltando para Duda, que brincava no sofá - Foi ótimo passear, viu lindinha? Vamos combinar outras vezes!
-Vai ter mais chocolate? - perguntou a menina sorrindo e enlaçando, Rachel pelo pescoço. Beijando-lhe a face.
A levantadora riu e a beijou no rosto.
-Vai sim, espertinha!
O beijo de despedida com Isabel foi demorado e carinhoso. As duas encostadas na porta de saída, pela parte de dentro.
-Te vejo na faculdade amanha! - disse Rachel conseguindo tirar sua boca dos lábios da atacante - Morrendo de saudade!
-E eu? Vou tomar vários banhos frios pra acabar com essa vontade de você que eu estou agora.
As duas sorriram cúmplices.
-Te amo, ta? - falou Rachel voltando a beijá-la rapidamente.
-Também te amo, meu anjo! Se cuida!
-Você também! Tchau, Duda!
-Tchau, Kel!
Quando a garota foi embora, Isabel sentou-se no sofá ao lado da irmã. Gostava de vê-la entretida nas próprias brincadeiras, a daquela noite consistia, ora em testar todos os botões do controle remoto da televisão ora em perseguir Louis e Lestat pela sala.
-Meu amor, quando você cansa hein? - perguntou Isabel se deitando e observando a menina procurar os gatos debaixo das cadeiras - Sua mãe lá se divertindo e eu aqui dando uma de babá! Que vida!
Duda se aproximou carinhosa.
-Mamãe ama Ed! - disse inocente, se deitando sobre a irmã.
-É? - perguntou Isabel sorrindo.
A criança fez que sim.
-Que sortudo esse meu primo! Ganhou um mulherão e uma filha linda de presente!
As duas ficaram ali deitadas vendo televisão, até Isabel sentir a menina cair no sono e levá-la pra sua cama. Acabou deitando-se junto dela e aos poucos adormeceu. De Rebeca e Ed? Nenhuma notícia, pelo menos até a manhã seguinte.
***

Rachel acordou animadíssima na sexta-feira. É certo que teria um dia duro, com aulas, treino e trabalho, mas a perspectiva de estar bem com Isabel, a animava mais que tudo. Estava tão feliz, que chegou a fazer o café da manhã da família.
-Humm..- exclamou sua mãe sorrindo - Alguém pulou da cama hoje?
-Acordei cedo mesmo, mãe. Aulas e muita coisa pra fazer!
-E essa felicidade, tem nome?
Rachel manteve o sorriso.
-Tem sim. Mas por ora você não vai saber, Dona Beatriz! Deixa de ser curiosa!
A tradutora sorriu.
-Desde que você seja feliz, minha filha. Eu fico tranqüila e muito alegre também!
As duas se abraçaram e despediram-se.
-Não venho almoçar em casa, tá?
-Vai ficar direto na faculdade?
-Não sei ainda. Combinei com a Isabel de fazer alguma coisa.
-Fico feliz que tenham ficado amigas. Aquela garota gosta muito de você!
Rachel sorriu da afirmação da mãe.
-Estamos bem agora, Dona Bia! Pode ter certeza!
-Que bom, filha!
Já na faculdade, depois de muitos abraços e beijos no banheiro do bloco de letras, as duas sentaram lado a lado na aula que tinham em comum.
-Bel! Cê vai ficar me olhando a aula toda? - perguntou a levantadora vendo que a atacante não tirava os olhos de onde ela estava.
Isabel sorriu.
-É que você tá tão linda hoje. Fico me segurando pra não te agarrar aqui mesmo - admitiu a outra - Que cê acha da gente ir lá em casa depois da aula? Almoçamos e voltamos pra cá!
-Eu sei bem o que você quer fazer comigo na sua casa, mocinha! - disse Rachel sorrindo maroto - Vamos nos atrasar para o treino!
-Ah, Rachel! - protestou Isabel - Cê vai ficar bancando a difícil comigo é? Ontem foram as resenhas, hoje o treino?
-Eu não to bancando a difícil, você que anda carente demais pro meu gosto. Não consegue esperar até a noite é?
Isabel fez que não. E a olhou decidida.
-Vamos pra minha casa depois da aula e ai de você se não quiser fazer amor comigo! - falou firmemente.
Rachel riu divertida.
-Cê acha que eu não ia querer, sua boba?
-Você disse que eu tava carente demais. Sei lá, né!
A levantadora sorriu.
-Tudo só pra te deixar com mais vontade, Bel! - admitiu - Aceito ir pra sua casa, sim. Mas não vamos perder o treino, ta?
Isabel assentiu.
-Prometo! - disse sorrindo.
-Então assim, ficamos combinadas.
-Uhum!
***

Ed nunca tivera uma noite tão perfeita em toda sua vida. Conversara com Rebeca, mas logo o desejo que sentiam foi bem maior que as palavras ou o temor de se envolver.
Os dois se amaram no sofá da sala por tempos, depois exaustos partiram para um banho juntos. Mais carinhos trocados. Mais desejo alimentado.
A fome os fez descer e pedir alguma coisa pra saciá-la. Esperaram a comida, abraçados, feito casal de namorados no sofá. Rebeca totalmente relaxada nos braços do rapaz.
Ela não se arrependia do que haviam feito. Fazia tempo que não se sentia tão desejada, tão especial. Quase a mais sensual e bela das mulheres. Mesmo antes de Duda nascer, seu relacionamento com Paulo já estava fadado ao fiasco. O sexo tornara-se escasso e mecânico. Toda aquela aura de sedução do começo tinha dado lugar à rotina. Com Ed ela redescobrira a sensação de ser seduzida e seduzir. Talvez por isso, apesar da idade e de ser bem menos experiente que ela, ele a encantasse tanto.
Depois do jantar, o tesão que nascera no banho tornou a aparecer e eles resolveram subir e passaram boa parte da noite bem ocupados na cama de Rebeca.
Não se lembraram de nada que não fosse carinho e prazer. Após horas e horas, beijos, carícias, e orgasmos dos mais variados níveis adormeceram suavemente um nos braços do outro, sobre os lençóis desarrumados.
O clima de romance podia ser percebido por qualquer pessoa. Os olhares, os sorrisos, as mãos que teimavam em não quererem se separar.
Isabel sorriu feliz ao vê-los chegar de manhã para buscar Duda. Sentia a felicidade contagiar o ar.
-Oi, Bel! - falou Ed abraçando-a com um largo sorriso - Desculpe por ontem, simplesmente esquecemos.
A jogadora de vôlei sorriu e aceitou o abraço do primo.
-Não se preocupe. Fico feliz que tenham se entendido.
Rebeca abraçou a filha, a menina um tanto sonolenta, e olhou Isabel encabulada.
-Você deve tá me achando uma irresponsável! - disse ela.
-Oxe e por quê?
-Por deixar a minha filha com você pra namorar!
Isabel sorriu.
-Disponha. Se você colocar esse sorriso no rosto do meu primo sempre, eu viro babá oficial da Duda! - falou a atacante.
Rebeca e Ed riram.
-E Rachel? - perguntou o rapaz - Pensei que ela ia dormir aqui!
A jogadora de vôlei sorriu.
-Eu também. Mas ela tinha umas coisas da faculdade pra fazer - explicou ela e beijando o rosto da irmã - De qualquer forma, eu dormi com uma mulher lindona na minha cama, né Duda?
A menina fez que sim bocejando.
-Bom, temos que ir - disse Rebeca - Obrigada por tudo, Isabel!
-Não precisa agradecer! Vamos ser primas não é? - perguntou a atacante caindo na risada.
Rebeca abraçou e beijou Ed delicadamente na boca, se despedindo.
-Eu espero sinceramente que sim! - respondeu ela.
Quando a secretária e a filha foram embora, os dois primos não contiveram a risada.
-Quem diria, mané? Você ganhou mesmo a Rebeca!
Ed fez que sim.
-Nem eu acredito ainda, sabia? Não posso deixar de achá-la linda demais pra mim.
-Oxe, besteira. Ela não tem que ser linda demais pra você. Tem que ser a mais linda de todas. A única. A que te basta.
-Rachel é assim pra você? - perguntou ele curioso - Não sente atração por nenhuma outra mulher. A Roberta por exemplo.
-É claro que eu sinto. Elas passam, a gente olha. É natural. Mas isso não quer dizer nada, desde que você respeite a mulher que está com você.
Ed sorriu.
-Prima, olha que eu nunca pensei que ia falar de mulher com você, viu? Nem com o Hugo eu falo dessas coisas!
Isabel sorriu também.
-Acho que meu irmãozinho não tinha muito pra falar sobre o assunto antes da Cacau! - revelou a jogadora de vôlei.
-Eu sabia! - exclamou Ed rindo - Sabia que ele ainda era virgem, mas não queria admitir.
-Ah Ed, não vai zoar com o Hugo não, hein? - pediu Isabel.
Os dois trocaram um olhar cúmplice.
-Tá bom - mudou de idéia a garota - Só um pouquinho!
Novamente os dois juntos caíram na risada.

***

As duas estavam completamente nuas sobre a cama. O corpo de Rachel perfeitamente encaixado sobre o de Isabel se movimentava numa cadencia gostosa, fazendo com seus sexos se tocassem a todo instante e ambas suspirassem entre um beijo e outro.
Já passava muito da hora do almoço e fazia mais tempo ainda que estavam no quarto de Isabel. Entretidas, tinham se esquecido da hora e de qualquer coisa fora daqueles lençóis.
Isabel sentiu aquela sensação de prazer se acumulando, a umidade entre as pernas era total e ela acariciava as costas nuas de Rachel, enquanto movia seu quadril, rebolando juntamente com ela, procurando aumentar ainda mais a sensação maravilhosa que sentia.
Os beijos eram provocantes. Se tocavam, só os lábios, e mordiam-nos delicadamente. Ora se afastavam, ora chupavam freneticamente as línguas uma da outra. Era incrível a rapidez com que percorriam estas, vorazes, percorriam as bocas.
A atacante percebeu que se continuasse naquela pegação toda, acabaria gozando e ela queria algo mais antes que isso acontecesse. Beijou o rosto, e mordeu a orelha de Rachel, pedindo com um quê de urgência:
-Eu quero sentir você...faz por favor!
A levantadora sorriu apaixonada. E sem muita cerimônia desceu a boca pelo corpo de Isabel, até abocanhar-lhe o sexo com fervor.
Rachel não sabia definir o que era mais excitante. Se sentir o cheiro e o gosto da sua mulher, ali, ao seu dispor. Ou ouvi-la gemer e se contorcer à medida que a devorava.
Ávida por dar prazer a Isabel, Rachel beijou-a, chupou-a com sofreguidão de cima abaixo, possui-a com sua língua, carinhosamente com os dedos, até senti-la rebolar desesperada em sua boca e depois suplicar entre suspiros e urros de prazer que não parasse. Quando Isabel finalmente se rendeu ao gozo, Rachel bebeu todo o sabor que escorria de seu sexo e levou-a a um novo orgasmo.
O abraço foi reconfortante, protetor, agradecido. Beijaram-se e ficaram ali nuas, deitadas de conchinha, simplesmente sentido uma a presença da outra.
Foi Isabel que ouviu o celular tocar diversas vezes.
-Quem será que quer tanto falar com você? - perguntou Rachel curiosa ao ver a outra atendê-lo.
-Alô - disse a atacante. Reconheceu a voz na hora. Marilena. E bem brava.
-Eu creio que a Rachel está ai com você, por isso vou dar a bronca de uma vez só! - disse a técnica - As duas mocinhas sabem que horas são?
-Que horas são, meu anjo? - perguntou Isabel para Rachel. A levantadora olhou no relógio que deixara sobre a cabeceira e fitou a atacante espantada - Bel já são 17h da tarde! Por Deus, perdemos o treino!
-Eu nem preciso dizer que esse treino era de suma importância para o próximo joga não é Isabel? Agora como eu posso treinar se duas jogadoras do meu time titular faltam!? - perguntou Marilena um tanto irritada.
-Desculpa, treinadora - falou Isabel envergonhada - A gente perdeu a hora.
-É e eu sei bem porque! - disse Marilena do outro lado da linha - Fico feliz que tenham feito as pazes, mas que isso não se repita, ok?
-Ok!
-Quero as duas amanhã de manhã no ginásio. Vão treinar o que não treinaram hoje! - acrescentou a técnica - Estamos combinadas?
-Combinadas! - disse Isabel sorrindo ao desligar o telefone.
-Ela tá muito brava? - perguntou Rachel apreensiva.
A atacante relatou o que a treinadora tinha lhe falado.
-É, até que ela foi boazinha com a gente! - concluiu a levantadora - Pensei que ia expulsar nós duas do time!
Isabel sorriu e tornou a abraçar Rachel.
-Sabe o melhor disso?
-Hum?
-Você não tem mais desculpa pra querer sair da cama hoje!
Rachel sorriu.
-Sair? Nada me faz sair daqui tão cedo, mocinha! - disse ela beijando Isabel - Já vou até avisar os meus pais que não vou dormir em casa hoje!
A atacante sorriu.
-Assim, eu vou querer faltar todos os treinos. Pelo menos passo a noite toda com você!
As duas tornaram a se beijar e pouco a pouco a se amar novamente. Naquela noite, era a vez delas de recuperarem o tempo perdido.

Capítulo 26: Tensões....

Para Rachel o mundo parecia ter se tornado completamente cor de rosa. Ela estava verdadeiramente em estado de graça. O time treinava e rendia melhor a cada treino, ela e Isabel ficavam juntas o maior tempo possível e tudo entre elas era amor, carinho e felicidade. O que mais podia querer da vida?
Isabel lhe ajudara a se inscrever no processo de seleção das bolsas de esporte e as duas passavam quase a tarde toda juntas na livraria.
“-Se aquela sala de correção de textos falasse!” - pensava levantadora com um sorriso. Com certeza acabaria revelando todas as loucuras que, cedendo ao desejo, as duas já tinham cometido ali.
Era incrível que até programas de casais as duas já tinham feito com Ed e Rebeca. Alugavam filmes, ficava cada casal em um sofá, namorando e assistindo. Outras vezes saiam os quatro juntos e Duda. Já tinham ido a restaurantes, cinemas, e até a uma peça infantil de teatro. Apesar de não entender muito bem, já que era bem nova ainda, a menina se divertira a valer com a Chapeuzinho Vermelho e Branca de Neve ali tão pertinho no palco.
Duda criara a mania de gostar de histórias graças à irmã. Isabel adorava contá-las para a menina, quando ela já estava deitada na cama, prontinha pra dormir. Sorria ao ver aqueles olhinhos infantis vidrados, observando, imaginando e fazia questão de imitar as vozes e as ações dos personagens que descrevia. As duas se divertiam muito assim.
Para a felicidade de Rachel ficar completa só faltava ela resolver um problema que continuava pendente: a antipatia de Hélen por Isabel. A amiga continuava a não querer muito papo com a atacante, e se tornara ainda mais sarcástica ao perceber a aproximação entre ela e a levantadora.
Quando encontrava as duas juntas, preferia fingir que nem as tinha visto. E chegara mesmo a evitar ligar ou ir à casa de Rachel, pois sabia que corria o risco de encontrar com Isabel por lá.
Aquilo incomodava bastante Rachel. Ela sabia que a mulata era teimosa, orgulhosa, mas as duas eram amigas há muito tempo. Tinha plena certeza do seu amor por Isabel, mas queria fazer o possível para não magoar a amiga.
-Por que não falamos com ela, Kel? - perguntou-lhe Isabel, as duas abraçadas no quarto da levantadora, vendo televisão - Devíamos explicar a situação. Mostrar a Hélen que ela não vai perder você como amiga. Porque eu ainda acho que essa antipatia toda de mim é ciúmes de você!
-Eu sei que é, Bel! Mas tenho medo de ela ficar horrorizada quando souber da gente e não querer mais falar comigo! Hélen nunca soube nada com relação à Alice. Sempre achou que éramos apenas boas amigas. Como eu vou dizer a ela que menti esse tempo todo?
-Você não mentiu, meu anjo. Só omitiu. E se ela for mesmo sua amiga, vai entender.
-Eu queria ter toda essa sua confiança! - disse a levantadora sorrindo.
Isabel sorriu também e beijou-a. Depois a encarou séria.
-Tem outra coisa que temos que resolver, Rachel - falou ela - Eu adoro ficar com você. Aqui, na minha casa, em todo lugar. Mas não quero mais me esconder. Fingir que somos apenas amigas e ficar me segurando para não te beijar ou fazer um carinho em público.
-Você quer assumir, é isso? - indagou a levantadora surpresa.
-De certa forma sim. Queria contar para as famílias primeiro. Seus pais, seu irmão, minha mãe e o Hugo. Não acho muito justo a gente ficar se agarrando em casa e mentindo pra eles, entende?
Rachel sentou-se, sendo imitada por Isabel. Nunca pensara em nada daquilo que a namorada lhe propunha. Era muito novo pra ela cogitar a possibilidade de contar tudo para sua família. Mas entendia o pedido de Isabel.
-Você me dá um tempo pra pensar nisso, Bel? Confesso que ainda tenho medo.
A atacante a abraçou carinhosamente.
-O tempo que precisar, meu anjo. Não quero te pressionar a nada. Só queria poder mostrar pra todo mundo como eu sou feliz com você! Mas eu espero sim. Pensa sobre a Hélen também ta? A gente não vai poder esconder isso dela a vida toda.
-É, eu sei que não. Mas deixando ela e as famílias de lado, vem cá! Me dá um beijo vai!
Ambas sorriam.
-Nem precisava pedir, meu anjo! - disse Isabel rindo e beijando a namorada.
Namorando, ali na cama, elas esqueceram-se de tudo o mais que não fosse beijos e muito carinho.

***

Gustavo já estava saturado do mau humor constante de Hélen. Toda vida que saiam a mulata ficava emburrada, falando sempre de como Rachel era ingrata e a trocara pela ‘vaca’ da Isabel.
Naquela noite, o nadador não agüentou mais e desabafou.
-Hélen pára de falar da minha irmã, ta? - pediu irritado - Não é ela que tá aqui com você agora! Sou eu! Parece até que tá com ciúmes da Rachel! Que saco, pô! Se quer reclamar dela, vai lá em casa, solta os cachorros, briga com ela, mas não fica me alugando a noite toda com esse papo não! Já deu pra mim!
Só quando o rapaz se afastou dela com a intenção de ir embora, Hélen se tocou do que fizera e foi atrás dele.
-Gu, espera, por favor! - disse detendo o rapaz pelo braço.
Os dois ficaram frente a frente.
-Eu não sai com você pra te ouvir reclamando da minha irmã. Sai pra ficar contigo. Então resolve esse seu problema com ela e depois a gente conversa! Não agüento mais isso!
-Não faz assim, Gustavo. Eu prometo que não falo mais da Rachel, vai. É que ela e essa Isabel tão próximas me irrita.
Gustavo encarou a jogadora de vôlei sem muita paciência.
-Eu não to terminando com você. To te dando um tempo pra você resolver esse problema com a minha irmã e voltar a ser a Hélen que eu conhecia. Depois que você se acertar ou não com a Rachel, a gente conversa! - disse o nadador virando-se e indo embora.
Hélen ficou ali sentada no imenso jardim de sua casa. As lágrimas foram inevitáveis e aquela sensação de raiva foi crescendo em seu peito.
Tudo era perfeito antes da chegada de Isabel a cidade. Ela tinha sua melhor amiga perto, tinha seu namorado e agora ficara sem nenhum dos dois. Tudo por culpa daquela novata. Tinha que dar um jeito nela custasse o que custasse. E faria isso mais cedo do que o próprio Gustavo esperava. Ou não se chamava Hélen Lemar.

***
Marilena estava preocupada com o próximo jogo. Semifinal e já iriam bater de frente com a equipe da Federal, a outra única que estava invicta no campeonato e que era treinada por Letícia.
As jogadoras estavam rendendo bem nos treinos. Mas ela sabia que a ex-namorada viria com força máxima. E queria contar com todas as suas atletas concentradas e focadas no jogo.
Por isso mesmo, naquele sábado de treino extra, que antecedia a semana do jogo, depois de falar com a comissão técnica e com os representantes da universidade, ela comunicou as jogadoras a decisão tomada.
-A partir de segunda-feira, todas nós iremos ficar concentradas num centro de treinamento que a Metropolitana mantém em Santa Luzia. - disse a treinadora - Voltaremos no sábado de manhã, direto para o ginásio do jogo. Não se preocupem que todas vocês serão dispensadas das aulas e poderão se recuperar depois.
O burburinho foi total entre as garotas. Nunca tinha estado em concentração assim antes.
-O time da Federal é o melhor da competição. Ainda não perdeu um set si quer. E se quisermos mesmo chegar à final do Regional, vamos ter que ir com força máxima - e olhando para Rachel, Isabel e Hélen, continuou - Não quero saber de distrações, de picuinhas entre vocês. Vamos nos concentrar e jogar como um time unido e coeso. Entenderam?
As jogadoras ainda um tanto surpresas assentiram. Nunca tinham visto a técnica tão determinada assim antes.
-Acho que ela nem tá assim preocupada com o campeonato. Ela não quer perder o jogo para a Federal de jeito nenhum! - comentavam as meninas já no vestiário.
-Claro que ela não quer! - disse Simone, uma meio de rede, ainda no chuveiro - Me disseram que ela namorava a treinadora da Federal e as terminaram por causa do vôlei!
-O que?! - exclamaram as outras jogadoras estupefatas.
-A Marilena é lésbica? - perguntou Sarah, a líbero reserva, com uma cara de nojo.
-Ao que tudo indica é sim! - confirmou também Lia, outra meio de rede - Não acredito que você não sabia!
-Eca! - disseram Ivna e Hélen ao mesmo tempo.
- Se não bastasse ficar uma semana longe de casa, vamos ter que fazer isso por que a nossa técnica gosta de mulher! - falou a Ivna, a levantadora reserva.
-Ah gente, vamos deixar de preconceito! - disse a Cacau - Marilena nunca tentou nada com nenhuma de nós. E isso não muda o fato de que é uma excelente profissional.
-Você sempre defende as pessoas, Carolina - falou Hélen - Mas duvido se alguém aqui ficaria a vontade de dividir o chuveiro ou mesmo um quarto com uma lésbica. Sabe-se lá o que ela pode fazer? Eu pelo menos não quero jamais!
Houve um coro de ‘Nem eu’ pelo vestiário. Nenhuma das meninas parecia muito à vontade com aquela perspectiva.
-Vocês acham o que gente, que se houvesse alguém assim entre nós, ela ia atacar vocês? - ainda insistiu Cacau - Façam-me o favor!
-Se ela ia, eu não sei - continuou Hélen - Mas prefiro não me arriscar!
A maioria das meninas concordou com a mulata. Ninguém queria dividir o chuveiro ou quarto com uma lésbica de forma nenhuma.
-Ainda bem que a Marilena não dorme com a gente né? - disse Milena caindo na risada - Ela sempre divide o quarto com o Abreu.
Rachel e Isabel, que já tinham tomado banho e terminavam de se vestir, permaneceram longe daquela discussão. Trocavam olhares significativos enquanto as meninas falavam do assunto. E a atacante teve certeza de ver a levantadora dizer-lhe através deles
“-Ta vendo por que eu não quero contar a verdade? Nosso próprio time não nos aceitaria!”
Isabel não pode deixar de pensar que a namorada estava certa. O preconceito as atingiria aonde elas menos esperavam. E por isso mesmo seria mais que cruel, seria desumano.
O que elas deveriam fazer? Esconder-se? Arriscar-se e enfrentar as pressões todas? A própria atacante ficara em dúvida depois daquele papo no vestiário.

***

Gabriela era só ansiedade naquele sábado à tarde. Já assistira às últimas aulas antes do vestibular, no dia seguinte, e por mais que estivesse ali com Roberta, sua cabeça estava longe.
-Gaby, você não tá mesmo a fim de namorar comigo hoje né? - perguntou a estudante de enfermagem desistindo de fazer carinhos na garota.
Gabriela a encarou com um sorriso triste.
-Desculpa, linda. To muito ansiosa pra amanhã! - admitiu - Não consigo parar de pensar na prova.
-Tô vendo! - disse Roberta com uma cara magoada - Quer que eu te leve pra casa? Acho que a gente não vai render muito hoje. Você está com a cabeça nas nuvens!
A adolescente sorriu e foi até a ruiva, trazendo-a pela mão para cama onde estavam deitadas há pouco.
-Vem, fica aqui comigo, vai? Só me abraça um pouquinho. Pode não parecer, mas ficar assim com você me conforta.
Roberta sorriu apaixonada. Como era possível ela não resistir a aqueles pedidos? Ficava completamente a mercê de Gabriela e o mais surpreendente, gostava disso.
As duas tinham finalmente perdido a vergonha e se envolvido. Estavam todo seu tempo livre juntas e às vezes, Roberta ainda ajudava Gaby nos estudos. As duas passavam tardes mergulhadas na química e na biologia.
Gabriela ia tentar Medicina, um dos cursos mais concorridos da região e de nível muito alto entre os candidatos. Por isso tamanho nervosismo na véspera da prova.
A ruiva deixou-se ficar ali, com a garota em seus braços, enquanto fazia-lhe cafuné. Nunca pensara em ficar assim com outra mulher. As coisas sempre foram sexuais demais. Mesmo com Isabel. Mas Gabriela tinha um poder sobre ela, que Roberta não sabia definir.
Tivera a primeira prova disso, quando as duas começaram a sair e ela, apesar do desejo que sentia, se controlara e respeitara o limite da adolescente. Aquilo estava fora de cogitação antes. Sempre queria sexo e cedia a seus desejos. Mas com Gaby ela soubera se conter, o que se revelou mais que compensador depois.
Era impossível não se lembrar da primeira vez que tinham se amado e não sentir um arrepio percorrer seu corpo. Primeiro ficara encantada com Gabriela, ali, completamente nua e entregue na sua cama. E depois as surpresas e sensações inéditas que aquele ato de amor lhes proporcionou.
A virgindade de Gabriela a preocupava bastante, pois queria dar a ela o maior prazer possível, mas não queria correr o risco de machucá-la. Felizmente a própria adolescente lhe mostrara como agir, devagar, sem pressa, de maneira que isso deixou de ser um problema e se transformou em um momento que ela nunca esqueceria.
Tinha sido a primeira pessoa a amar Gabriela, mas aquilo não figurava para Roberta como uma conquista. Não tivera esse pensamento tipicamente masculino. Pelo contrário. Ficara encantada com a confiança que a adolescente depositara em sua pessoa e percebera que sentia bem mais que carinho por ela.
Sorria quando se lembrava de uma Gabriela ainda ofegante e extasiada, olhando para seu corpo nu, que se oferecia carente de toques e carinhos, e depois a encarando inocentemente.
-Rô, eu não sei o que fazer... - dissera a adolescente ainda nervosa ao ver aquela mulher toda a sua disposição.
Roberta pegara as mãos dela e colocara sobre seus próprios seios.
-Não tem saber...faz o que você quiser, linda!
Gabriela sorrira. Fazer o que quiser naquele mulherão? Deus! Ela não sabia nem por onde começar! Então achou melhor proceder como Roberta tinha feito com ela.
Foi meio estranho e um tanto sem jeito, mas as duas tinham se entendido.
-Rô? - chamou-a Gabriela tirando Roberta de suas lembranças.
-Diga, linda!
-Posso dormir aqui com você, hoje? - perguntou timidamente.
Roberta a encarou surpresa.
-Pode. É que pensei que ia preferir ir pra casa.
-Não. Prefiro ficar com você - disse a adolescente virando-se para encará-la - Você me leva amanhã pra prova?
A estudante de enfermagem sorriu.
-Levo, Gaby. Claro que levo!
Gabriela sorriu e beijou-a.
-Linda, não beija assim. Eu não resisto.
A garota olhou-a cheia de segundas intenções.
-Mas não é pra você resistir mesmo!
Roberta sorriu e a agarrou, as duas caindo deitadas sobre a cama.
-Pensei que cê ainda ia querer estudar química e biologia hoje à tarde! - disse ela pressionando seu corpo sobre o de Gaby.
A garota afagou-lhe os cabelos e percorreu-lhe os lábios com os dedos.
-E eu vou. Mas um estudo mais prático com você, pode ser?
-Que espertinha você ta ficando hein?
-Tô aprendendo rapidinho com você, Rô!
As duas riram e rolaram juntas pela cama. A química em alta e a biologia mais interessante do que nunca.

 

Capítulo 27: Vendetta...


A viagem até Santa Luzia fora tranqüila. Rachel ainda pensou em sentar-se com Hélen, mas a amiga procurou logo a companhia de Simone e não quis muito papo com ela.
-Ela não quer mesmo falar comigo! - disse sentando-se ao lado de Isabel.
-Hélen?
-Uhum. Nem me olha mais direito.
-Eu disse, meu anjo. Acho que devemos mesmo falar com ela. Vocês estão brigadas por nada.
-É, mas você viu a reação dela ao saber da Marilena, não é? Imagina quando descobrir de mim. Ou melhor, de nós. Por que ela vai me odiar duas vezes. Por mentir e por ter me envolvido com você!
Isabel sorriu e segurou disfarçadamente uma das mãos de Rachel.
-Não se preocupe. A gente vai dar um jeito nisso.
A levantadora acariciou delicadamente a mão da namorada.
-Eu sei que vamos. Com você ao meu lado, eu sei que nada pode sair errado!
Os sorrisos foram afetuosos e cúmplices.
O centro de treinamento (CT) que a Metropolitana tinha em Santa Luiza era modelo na região. Já abrigara atletas das mais variadas seleções e os administradores foram muito simpáticos e se mostraram felizes ao receber a equipe de vôlei feminino.
A própria Marilena reuniu a equipe e divulgou a divisão dos quartos e das duplas que as ocupariam. Falou um pouco sobre o jogo e a importância de ganhar bem. Já que o segundo seria no ginásio da Federal. Depois de liberar as meninas para se alojarem, ela chamou Isabel e Rachel em particular.
-Eu coloquei as duas no mesmo dormitório, para evitar que tentem se encontrar por ai no meio da noite! - disse sorrindo para suas jogadoras e em seguida tornando a ficar séria - Mas não quero saber de atrasos nos treinos por causa de namoricos, ok?
As duas atletas assentiram com um sorriso no rosto.
-Bom, podem ir! Vejo as duas na hora do jantar.
Mais tarde, já no quarto arrumando as roupas e pertences.
-Kel, toma - disse a atacante entregando a namorada um sutiã - Você esqueceu no meu quarto!
Risos e foi a vez de Rachel entregar uma blusa a Isabel.
-Eu não me lembro de ter esquecido isso na sua casa! - falou a atacante surpresa.
-Você não esqueceu, boba. Lembra do domingo da macarronada? Eu me sujei de molho de tomate e você me emprestou essa.
Isabel fez que sim. Tinha se lembrado. Sentada em sua cama, ela cheirou a blusa que acabara de receber.
-Ainda tá com o seu cheiro! - disse sorrindo - Nem vou vestir pra ficar assim!
Rachel sorriu da atitude na namorada e não resistiu de em ir até ela e beijá-la.
-Ah, eu não te contei? - perguntou sentando-se ao lado de Isabel.
-O que? - quis saber esta curiosa.
-Meu irmão quer te conhecer! - revelou a levantadora - Oficialmente agora né? Aquele dia da Calourada não conta!
As duas riram.
-É só marcar, anjo. Podemos sair se ele quiser.
-Ah não, Gui é chefe. Quer cozinhar pra gente. Pode ser?
Isabel acariciou o rosto de Rachel delicadamente. E depois colou seus lábios aos dela.
-Por você, pode tudo, amor!
As duas riram. Estavam mais felizes do que nunca. Sem ninguém entre elas, sem discussões ou brigas. Apenas o amor que as unia e as fazia ter certeza que nada podia atrapalhar aquela felicidade.
Pena que o futuro em breve mostraria que estavam enganadas.

***

Apesar de ter se mantido calada durante todo o tempo que se seguiu a armação de Ed e Isabel, Malu não deixara de pensar um segundo si quer em uma forma de se vingar da garota. Sabia que ali naquela história devia ter dedo de Rachel também. A única que ousara resistir a ela. Mas as duas pagariam e a juros altos, ela se prometera.
Os passar dos dias fez a preparadora física notar a aproximação evidente entre Isabel e Rachel, como também o conseqüente afastamento desta para com Hélen. Parecia que a oportunidade de vingança que tanto esperava estava chegando mais cedo do que ela esperava.
Descobrir o romance existente entre a levantadora e a atacante foi uma questão de simples observação. Ficava claro que havia mais que um sorriso de amigas ali. E os olhares então? Deixavam mais que evidente que as duas estavam envolvidas.
Malu, contudo, não queria dar sopa para o azar e preferiu ter certeza absoluta do que estava supondo. Para isso bastou apenas esconder-se no vestiário e esperar que as duas ficassem sozinhas, pois preferiam tomar banho, ou antes, ou depois das outras jogadoras.
Os carinhos e abraços de Isabel e Rachel, ambas nuas debaixo do chuveiro, podia ter lhes provocado muita felicidade. Mas para Malu foi como um prêmio. Tinha ali a oportunidade que tanto esperara.
O primeiro passo de seu plano fora fácil demais de ser posto em prática. Ela simplesmente revelara a algumas jogadoras a opção sexual da técnica, numa conversa inocente sobre relacionamentos. Não porque pretendesse atingir Marilena, mas para testar a reação delas à presença de alguém assim no grupo.
A conversa no vestiário, lhe demonstrara mais uma vez que estava no caminho certo. E o rompimento evidente entre Rachel e Hélen lhe abria novas possibilidades, que mais do que nunca deviam ser aproveitadas.
A idéia lhe surgiu quando percebeu que Marilena colocaria a levantadora e a atacante no mesmo dormitório. Conseguir uma copia da chave dos quartos com a administração do CT não foi assim tão difícil. A velha desculpa da inspeção dos dormitórios colou. Ela teria sua vingança e Isabel não poderia envolvê-la no assunto.
O envelope com a chave e um bilhete para Hélen foi posto dentro da mala de viagem da jogadora durante o jantar. Agora, era uma questão de esperar e assistir de camarote quando o show começasse.

***

Hélen demorou muito a voltar para o quarto. A conversa com as meninas na sala de jogos, mesmo sem Rachel estar presente, estava muito boa.
Quando finalmente resolveu subir e deitar-se, estranhou aquele envelope amarelo sobre sua roupa. Não se lembrava dele estar lá quando abrira a mala na chegada. Ainda pensou que fosse alguma mensagem para Simone, mas ao virá-lo viu seu nome escrito com letras de imprensa. Quem teria mandado aquela mensagem para ela?
Curiosa a garota abriu o envelope. Havia um bilhete e uma chavezinha, que ela logo identificou como sendo de uma das portas dos quartos do CT. Mas confusa ainda, a mulata abriu o bilhete a fim de lê-lo.
Era curtinho, também com letras de imprensa e continha apenas a seguinte frase:
“Se você quiser saber a verdade sobre sua amiga Rachel, aqui está a chance. Espero que aproveite.”
Hélen sentou-se na cama uns minutos tentando entender o que aquilo queria dizer. O que tinha a ver Rachel com aquela mensagem? Que verdade ela devia saber sobre sua amiga? Quem poderia ter lhe enviado o tal bilhete?
A curiosidade é mesmo algo incrível. Por mais que tentemos dominá-la, ela parece que tem um poder superior e ultrapassa todas as barreiras. Até mesmo as do afeto e da confiança entre duas amigas.
Hélen quase não respirava quando girou a chave, abrindo a porta do quarto que Rachel dividia com Isabel. Estava nervosa e ansiosa, e embora soubesse que aquilo representava uma invasão de privacidade, não conseguiu se conter.
A cena que presenciou foi diferente de tudo tinha imaginado. Podia aceitar que alguém falasse qualquer coisa de Rachel. Mas não adivinhar que ia flagrá-la ali, completamente nua aos beijos e abraços com Isabel. Isso estava fora de suas perspectivas.
Gritar foi um ato reflexo. Hélen não soube dizer se por nojo ou pela surpresa.
Só então as duas perceberam a sua presença na porta do quarto e a olharam estupefatas. Isabel saiu de cima de Rachel e enrolou-se num lençol, enquanto a levantadora fazia o mesmo.
-Hélen, eu posso te explicar... - ainda tentou dizer Rachel.
-Explicar? - praticamente gritou a oposto levando a mão na boca - Vocês duas são...
-Hélen, você tem que nos escutar! - foi a vez de Isabel falar indo até ela.
-Sai! - gritou novamente a mulata se afastando da atacante - Não encosta em mim!
Rachel também se levantou. Esperava uma reação ruim por parte da amiga. Mas não tão chocante assim. Com certeza aqueles gritos dela já tinham acordado metade do Centro de Treinamento.
As suspeitas da levantadora estavam corretas. Pouco a pouco várias portas dos dormitórios se abriram e as outras jogadoras e os membros da comissão técnica foram aparecendo curiosos para saber o porquê da gritaria.
Hélen não fez muita questão de ser discreta. Estava estarrecida, praticamente fora de si.
-Eu encontrei as duas se agarrando na cama! - ela repetia sem parar - As duas aos beijos!
Aquelas palavras passaram de boca em boca e logo as outras jogadoras também olhavam para Isabel e Rachel com uma expressão de mágoa e ressentimento. Outras estavam com nojo mesmo, elas puderam notar.
Isabel percebeu o sorriso satisfeito de Malu, pouco antes de Marilena chegar e acabar com aquele triste espetáculo.
-Todas para os dormitórios, meninas! - disse com voz firme e voltando-se para a Dra. Sandra que acabara de aparecer de robe - Sandra você e Simone podem cuidar da Hélen? Acho que ela está muito abalada.
As três saíram logo depois das outras garotas. Só então a técnica se voltou para Rachel e Isabel. Ambas paradas e abatidas com o ocorrido.
-Vocês duas se vistam! - disse sem mais palavras - Amanhã conversamos.
Quando a porta do quarto foi finalmente fechada e as duas ficaram novamente sozinhas, Rachel desabou na cama a chorar. Mais do que ninguém ela sabia que tinha perdido a confiança de seu time. E ver aquelas expressões de desapontamento nos rostos de suas amigas, era pior que tudo.
Ela nem se lembra sentir Isabel ajudando-a a vestir-se e fazendo-a deitar na cama para descansar. Só conseguiu finalmente relaxar e aos poucos parar de chorar, quando sentiu o abraço protetor do corpo, também já vestido dela, junto ao seu.
-Elas me odeiam agora, Bel! - balbuciou.
-Não pensa nisso, anjo. Dorme. Amanhã a gente resolve.
-Não sei se vou conseguir dormir. To com medo do que vou encontrar quando acordar.
Isabel sorriu e a beijou a testa carinhosamente.
-Não tenha. Eu vou estar com você o tempo todo. E ninguém vai te fazer mal. Eu não vou deixar!
Talvez mais tranqüila com essas palavras ou mesmo levada pelo cansaço das emoções, Rachel acabou adormecendo. Isabel, contudo ficou acordada a noite toda.
A atacante se lembrava bem de ter trancado a porta do quarto ao entrarem. E pelo sorriso que vira no rosto de Malu, sabia bem quem tinha aprontado aquilo tudo. Hélen fora um mero fantoche.
A raiva aflorava em seu peito a cada instante. Mas ela sabia que a hora da preparadora física chegaria. Sua atenção e carinhos deviam ser todos voltados para Rachel no momento. O dia seguinte prometia ser um dos piores que já tinham enfrentado e ela queria estar bem para confortar a namorada. Só não conseguia vislumbrar como poderia, tamanha era a tempestade que se aproximava.

***

 
Capítulo 28: Amor x Preconceito....

 

Quando Rachel finalmente acordou, já encontrou Isabel banhada e pronta para o café da manhã. Espreguiçou-se ainda na cama e só então se lembrou da noite anterior. Tinha a vã esperança de que aquilo tudo não tivesse passado de um sonho ruim. Mas precisava levantar e acordar para a dura realidade que teria que enfrentar.
Estava feliz em contar com a companhia e o apoio de Isabel. Sabia que ela estivera ali, ao seu lado, durante toda a noite e só por isso conseguira pegar no sono e dormir tranqüila.
Deixou a água correr solta pelo corpo e limpar de sua mente qualquer dúvida que pudesse restar. Já tinha abandonado a atacante uma vez. E por aquele mesmo time que agora a condenava simplesmente por amar. Não faria aquilo de novo. Por mais que lhe doesse as amigas estarem magoadas com ela, Isabel era mais importante. Era seu amor. O melhor que tinha acontecido na sua vida, em muito tempo. Escolhê-la-ia, caso fosse preciso.
As duas saíram um tanto tensas do quarto, mas só encontraram as meninas no refeitório do CT. Todas sentadas conversando animadamente até elas chegarem.
O silêncio foi total. E aqueles olhares inquisidores as julgaram a todo instante. Ninguém as convidou pra sentar. Ninguém falou com elas. Até mesmo Cacau estava magoada. Talvez não com o fato em si, mas por não terem lhe contado antes.
Rachel e Isabel, um tanto hesitante, se serviram na grande mesa posta para o desjejum e sentaram-se as duas na única mesa desocupada. Parecia que teriam que contar mesmo apenas uma com a presença e companhia da outra.
A levantadora procurou Hélen com os olhos, mas a amiga ainda não tinha chegado. Devia ter demorado a dormir depois da noite anterior. Ela sempre tinha dificuldade de relaxar quando algo saia de seu controle. Fora assim desde o colégio. Nota baixa ou uma prova importante era sinônimo de uma noite inteira em claro.
A situação não continuou muito diferente durante os treinos físicos da manhã. Nada de conversas e o pior, todas as meninas saíram do vestiário quando as duas entraram para colocar a roupa de banho pra natação. Parecia que tinham medo que elas as atacassem.
Rachel se sentou um tanto cansada daquela aversão toda.
-Eu me sinto como se tivesse uma doença altamente contagiosa! - disse desanimada - Como vamos jogar bem assim? A equipe toda dividida?
Isabel fez que não sabia. Sua preocupação estava mais além da de Rachel. Tinha medo que Hélen, em plena crise, tivesse comentado algo com Gustavo ou até mesmo com os pais da levantadora.
-Vamos perder feio assim. E depois, recuperar dentro do ginásio da Federal com a torcida fanática delas presente? É muito difícil. Elas não perdem em casa a mais de dois anos - continuou Rachel triste - E tudo por minha culpa!
A atacante sentou ao lado da namorada.
-Nunca mais diga isso, anjo - disse encarando-a séria - Eu não me sinto culpada de nada. Eu te amo e quero muito ficar com você. Se o time é tão preconceituoso ao ponto de não entender isso, não sei se vale a pena defendê-lo!
Rachel sorriu e abraçou Isabel. Como era possível amar alguém assim, de uma forma tão intensa e crescente? Seu corpo parecia se acalmar na presença do dela ou quando faziam amor, se incendiar. Nunca sentira isso com Alice. Houvera desejo, carinho e talvez até mesmo amor. Mas nada tão forte como era com Isabel.
As duas se beijaram ternamente. Mostrando que estavam ali para se apoiar.
-Eu te amo, sabia? - disse Rachel a encarando com um sorriso - Não quero mesmo ficar sem você!
A atacante sorriu.
-Eu também te amo, anjo. E não se preocupe. Não vai se livrar de mim tão cedo!
Iam beijar-se novamente quando ouviram as palmas na porta do vestiário. Era Hélen. Não mais estarrecida, e sim com um sorriso irônico nos lábios. Entrou as aplaudindo sarcasticamente.
-Muito bonito esse momento íntimo das duas! Parece que apesar de ontem não acabaram com essa pouca vergonha!
-Vejo que você já está bem! - falou Isabel se levantando séria - Já recobrou sua habilidade de ferir as pessoas!
-Ferir as pessoas? - surpreendeu-se a mulata - Quem anda ferindo as pessoas aqui são vocês duas. Se agarrando as escondidas, mentindo para o time inteiro.
-Hélen.. - começou Rachel.
-Eu esperava qualquer coisa dessa novata - interrompeu-a garota. A mágoa e a raiva já aflorando - Mas de você, Rachel? Eu cresci com você! Meu Deus quantas vezes tomamos banho juntas, ou dormimos uma na casa da outra? Várias! Sempre eu, você e Alice! Inseparáveis! E agora você se deixa levar por essa daí?
Rachel achou melhor contar toda a verdade de uma vez.
-Eu não me deixei levar pela Bel. Nos apaixonamos. Da mesma forma que eu e Alice antes de ela morrer naquele acidente. É, Hélen. Pode ser uma grande surpresa pra você, mas a sua melhor amiga aqui, já namorou uma mulher. E foi maravilhoso com ela, como está sendo mais que perfeito com a Isabel.
-Mentirosa! - acusou Hélen - Alice não era assim como você! Anormal! Como você ousa manchar a memória dela?
-Se você prefere não acreditar na verdade, não posso fazer nada, Hélen. Um dia talvez te mostre as cartas de amor, e as fotos que nós tiramos juntas. Daí você pode finalmente acreditar!
-Sabe que eu pensei que tudo era culpa dessa novata. Não fui com a sua cara desde o início - disse Hélen se voltando para Isabel - Mas agora eu vejo que você é tão culpada dessa anormalidade quanto ela, Rachel. Duas vagabundas, se esfregando as escondidas das pessoas. Enganando todo mundo!
A atacante foi detida por Rachel. Sua reação tinha sido partir para cima de Hélen e fazê-la engolir o que dissera.
-Não, Bel! - pediu-lhe a levantadora - É isso que ela quer.
Nesse momento elas perceberam que aquela discussão tinha sido vista de camarote por boa parte do time, parado do lado de fora da porta do vestiário. Várias garotas entraram ao ver a intenção de Isabel de agredir Hélen.
-É bom você pensar no que vai fazer! - disse Simone - Por que não vai bater numa de nós e se safar dessa ilesa!
A ovação foi total atrás da garota. As meninas se uniriam para defender Hélen e quem quer que fosse.
-Nenhuma de vocês vale o esforço - disse Isabel - Se dizem amigas e compreensivas, mas julgam as pessoas nas horas em que elas mais precisam de vocês. Se deixam levar pelo preconceito e pelo ciúme bobo da Hélen e ficam ai, com essa pose de donas da verdade, como se eu e Rachel fossemos duas criminosas ou devêssemos explicações da nossa vida pessoal a vocês!
-Nós não queremos lésbicas no nosso time! - alguém disse.
Mais ovação e concordância entre as jogadoras.
-Não se preocupem! - falou Rachel olhando decepcionada para suas amigas - As lésbicas aqui não têm mais a mínima vontade de permanecer aqui com vocês!
Hélen se surpreendeu de ouvir a amiga dizer aquilo. Sabia que Rachel considerava o time sagrado.
-Você vai nos deixar por causa dela? - perguntou perplexa.
Rachel trocou um olhar afetuoso com Isabel. Ele dizia claramente que estavam juntas. Com ou sem o time.
A levantadora pegou na bolsa a tarja de capitã que usava durante as partidas e deixou sobre o banco. Depois segurou a mão de Isabel carinhosamente, mas firme em sua decisão.
-Eu não tenho porque ser capitã e liderar uma equipe que não me aceita e comenta de mim pelas costas - disse séria olhando para cada uma das garotas ali presentes - Eu amo a Isabel, ela é minha namorada e nada do que vocês digam vai mudar isso. E já que deixaram bem claro que não querem lésbicas no time, a gente está mesmo se retirando! Desejo boa sorte pra vocês! Mas assim, eu não jogo mais!
As duas saíram ainda de mãos dadas do vestiário. Estavam tristes com o que acontecera, mas sabiam ter sido a decisão correta.
Marilena não opôs resistência à saída de ambas. Embora quisesse ganhar da Federal, sabia como era difícil a situação que Rachel e Isabel estavam vivendo. Ela mesma já sofrera preconceito.
-Fico triste que as coisas tenham chegado a esse pé! - disse quando já estavam no portão do CT. Isabel e Rachel esperando Gaby e Roberta que ficaram de ir buscá-las.
-Nós também, Marilena. Mas não tem muito clima pra jogo. As meninas estão com raiva.
-É, espero poder voltar a atenção delas para a partida ou vamos perder feio no sábado - disse a técnica abatida - Bom, desejo tudo de bom pra vocês! Tenho que ir.
-Obrigada, técnica! Por tudo! - disse a atacante.
A treinadora sorriu.
-Você não precisa mais me chamar assim, Isabel. Chame só de Marilena.
Isabel fez que sim sorrindo.
-Marilena, então.
A técnica entrou no CT e pouco depois Roberta e Gabriela chegaram. Isabel tinha contado sucintamente o que houvera a sua prima, então não fizeram tantas perguntas assim. Só queriam saber se estavam bem.
-Tudo bem sim, Gaby. Na medida do possível.
A estada na casa da prima foi curta. O suficiente para reservar duas passagens ainda naquele dia para a capital e almoçarem alguma coisa.
-Vocês podiam ficar mais tempo! - disse Gabriela.
-Melhor não, prima - opinou Isabel. Era perspicaz o suficiente para perceber que Rachel não gostava muito da companhia de Roberta. Mesmo esta namorando Gabriela - Temos que consertar as coisas em casa, antes que essa bomba exploda lá também!
No fim da tarde, já sentadas e acomodas no ônibus de viagem, foi inevitável tocar no assunto.
-Acho que agora não temos outra saída não é? - perguntou Rachel enquanto descansava a cabeça do ombro de Isabel - Temos que contar às nossas famílias, antes que outra pessoa conte.
A atacante fez que sim e revelou seu medo de que Hélen tivesse feito algo assim.

-Eu também pensei nisso ontem - admitiu Rachel - Mas ela tendo dito ou não, é algo com que vamos ter que lidar.
-Eu sempre quis falar disso com a minha mãe, mas você acha que está preparada, amor? - quis saber Isabel - Nossas famílias podem agir do mesmo jeito que o time!
-É, eu sei. Mas já que tanta gente já sabe, melhor admitirmos tudo logo de uma vez. Sei que posso sofrer, mas prefiro que seja o quando antes.
-Prefere contar pro seus e eu pro meus?
-Não! Prefiro reunir todo mundo e contar de uma vez só. Acho que vou até convidar o Gui. Alguém que já sabe pode nos apoiar bastante.
-É. Eu chamo o Ed e a Rebeca. Como vamos fazer isso, Rachel? Temos que inventar uma desculpa.
-Acho que a de um jantar cai bem. Minha mãe conhece a sua, então não vai estranhar.
Isabel fez que sim. Estava apreensiva com o resultado daquele jantar, mas feliz ao ver a namorada tão decidida.
-Sabe que eu tive vontade de beijar você quando enfrentou o time todo mais cedo? - revelou sorrindo.
Rachel riu.
-Até nessas horas você pensa em beijos?
A atacante fez que sim.
-Não consigo não pensar em carinhos com vocês! É mais forte que eu!
A levantadora a beijou, ali em pleno ônibus. Sem se importar com as pessoas das outras cadeiras.
-Viu? Não tem como não amar você!
Isabel sorriu e a abraçou forte. Sabia que a tempestade estava apenas começando a cair. E que mais surpresas desagradáveis poderiam surgir. Tinha que pensar na reação de suas famílias, em como ficaria sua bolsa de esportes, já que saíra do time e na sua vingança contra Malu por aquela armação. Sua vontade era publicar o vídeo na hora, mas sabia que tinha que consultar o primo antes.
Contudo, mesmo cansada da noite sem dormir e abatida devido aos problemas, sentir Rachel ali tão perto, lhe dava forças. Ela fora perfeita com o time. As enfrentara e a escolhera. O que mais ela podia querer? Tinha a mulher que amava ao seu lado. E com ela enfrentaria tudo que as impedisse de serem felizes juntas. O time fora apenas a ponta do iceberg. Mas ela estava mais que disposta a lutar, afinal, era sua felicidade com Rachel que estava em jogo. E disso, Isabel não tinha mesmo intenção de abrir mão!
 


Capítulo 29: Abrindo o jogo.....
 

Rachel nunca pensou que se sentira tão tensa na vida. Tinha certeza que Isabel devia estar com a mão dolorida tamanha a força com que segurava a dela. As famílias estavam ali defronte, sentadas no sofá, as ouvindo atentamente.
Paulo não pudera ir ao jantar, estava viajando a trabalho. Mas Carmem, Hugo, Renato, Beatriz e Gustavo escutaram um tanto surpresos suas revelações.
Pareceu que o tempo parou, tamanho o silêncio que reinou quando as duas se calaram e esperaram as reações. Sentados perto das duas atletas, Ed, Rebeca e Guilherme as apoiavam. A simples presença de alguém que já as aceitava era reconfortante.
Rachel falara primeiro. Sobre ela e Alice, sobre os reais motivos de sua depressão quando ela veio a falecer, as dúvidas, o medo de contar e ser criticada, e como conhecera Isabel e ambas tinham se envolvido.
Depois a atacante tomou a palavra. Explicou que sempre gostara de meninas e que os namorados eram a maioria de fachada, falou da insegurança, da sensação de anormalidade que sentira ao se descobrir assim e de toda a situação que as tinha levado a lhes contar aquilo tudo, de suas crises com Rachel, a presença de Roberta e o time.
-Eu achei mesmo que tinha alguma coisa diferente entre vocês quando a Rachel foi tão simpática com você Bel, logo de cara! - disse Hugo timidamente - Mas não achei que seria algo assim.
Beatriz estava muito surpresa. Nunca esperara isso na vida. Sua única filha gostava de mulher? Meu Deus que loucura era essa?
O velho sermão sobre aquilo tudo ser uma fase muito comum na adolescência, que passaria, ou apenas um produto da curiosidade, teve a participação dos três pais presentes.
-Mãe, pai, não é uma fase - esclareceu Rachel pacientemente - Eu não pretendo namorar homens. Mesmo porque eu amo a Isabel e é com ela que eu quero ficar!
-Minha filha você é muito nova ainda.... - começou Renato.
-Você também era quando se casou com a mamãe! - disse Gustavo intercedendo pela irmã - Olha, eu nunca achei que você era gay, maninha. A Hélen me enchia a paciência com ciúmes de vocês duas, agora entendo porque se reaproximaram. Não quero saber o que vocês fazem no quarto ou nenhum detalhe disso tudo. Desde que vocês esteja feliz, está tudo bem pra mim.
A reação do nadador foi surpreendente para todos. Rachel sorriu agradecida. Não era amiga de Gustavo, tipo de conversarem sobre as coisas. Mas o rapaz se mostrara além do preconceito. E ela sentiu que o amava mais ainda por isso.
Os dois se abraçaram e ele se voltou para Isabel com uma cara de bravo.
-Cuida dela viu, mocinha? Ou vai se ver comigo! - disse sorrindo.
A atacante também sorriu.
-Pode deixar. Vou cuidar dela direitinho.
-Filha - disse Carmem - Vocês duas tem noção do preconceito que vão enfrentar? As pessoas condenando, olhando, apontando vocês, como o próprio time fez? Eu entendo que tenham muito carinho uma pela outra, mas deviam pensar nisso com mais calma, antes de tomar qualquer decisão.
-Não tem mais o que pensar mãe. O time sabe e daqui a pouco todo o campus vai saber. Só por isso nós decidimos contar a vocês, para que não soubessem por outras pessoas. Não estamos aqui pedindo permissão pra namorar ou ficarmos juntas. Isso não está em questão e não são vocês que decidem! - Isabel disse firme e voltando-se para Beatriz e Renato - Eu amo filha de vocês. Podem achar que é um capricho de adolescente, mas não é. Entendo se não quiserem mais a minha presença nesta casa, sei que deve ser difícil de aceitar algo assim. Por isso não estamos pedindo isso.
-Só queremos o respeito de vocês, pai! - completou Rachel - Não precisam nos apoiar, levantar bandeira nenhuma. O que queremos é que continuem a nos tratar como filhas.
As reações não foram tão violentas, mas também não brandas. Os pais de Rachel, a mãe principalmente, parecia um tanto inconformada com a história.
Para Carmem, a mágoa maior era não ter sido informada de tudo antes. Ela se considerava amiga de Isabel e aquela falta de confiança da filha a estava matando.
As duas preferiram ir dormir na casa de Rebeca aquela noite. A secretária lhe cederia o quarto de hóspedes, e elas assim, esperavam dar um tempo mínimo para o impacto da notícia diminuir.
Naquela noite, quando já estavam deitadas tranquilamente na cama que dividiam na casa de Rebeca, as duas pela primeira vez na vida se sentiram livres. Sem necessidade de se esconder. De ser privar de certas coisas.
Nenhuma delas esperava que os pais aceitassem aquela notícia tão rapidamente. Mas também não estavam preocupadas em demasiado. Se amavam demais e aquilo as fortalecia e dava a certeza de que queriam e iriam permanecer juntas.
Os beijos até começaram a ficar mais carinhosos e o desejo foi surgindo, mas antes mesmo de pensarem em fazer amor, uma vozinha na porta do quarto, chamou sua atenção.
Era Duda. Parada ali de pijama, segurando um lençol, quase a arrastar no chão.
-Bel quer dormi aqui contigo! - disse ela bocejando de sono.
A atacante se voltou com um sorriso para a levantadora.
-Vem pra cá, vem Duda! - chamou Rachel sorrindo e piscando pra namorada - Acho que vamos ter que continuar depois!
Isabel fez que sim, ajudando a irmã subir na cama e se acomodar confortavelmente entre elas. As mãozinhas segurando uma de cada uma delas.
Ainda sorrindo as duas se deitaram.
-Boa noite, Bel! Boa noite, Kel! - ouviram Duda dizer antes de cair no sono.
-Boa noite, Duda! - disseram juntas.
Uma noite serena e tranqüila, para finalizar um dia cheio de emoções.

***

A derrota da equipe de vôlei feminino da Metropolitana não foi nenhuma novidade nem mesmo para Marilena. O time estivera completamente fora do jogo. Como se estivesse na quadra, mas com a cabeça longe.
Ivna e Reca, respectivamente a levantadora e a atacante reserva, até tentaram substituir Rachel e Isabel, mas as duas por mais que se esforçassem, ainda estavam muito aquém das duas jogadoras.
Faltou animação, paixão e vontade de ganhar. Rachel como líder que era, empolgava as companheiras e Isabel chamava o jogo pra si. Nos momentos mais críticos da partida eram pra ela as bolas. Era ela que tinha a missão de colocá-las no chão.
A coisa até que não começou tão ruim e elas conseguiram ganhar com muito esforço o primeiro set. Mas depois, parece que deu um apagão no time. As bolas de ataque não caiam, a defesa não funcionava, o saque ficava na rede, os bloqueios não rendiam como antes. E claro que jogando assim, foi questão de tempo perder os três sets seguintes e consequentemente o jogo para a equipe da Federal. Uma vitória do time visitante, dentro do ginásio da Metropolitana.
Marilena não teve coragem de encarar a ex-namorada. Letícia comemorava a vitória com suas jogadoras e apenas sorriu para a técnica derrotada.
Depois da folga do domingo, a bronca no treino de segunda foi grande. A treinadora nunca falara tão sério e nem fora tão dura antes. Não houve palavras delicadas pra nenhuma das atletas e a ordem do dia era treinar muito.
-Eu sei que a maioria de vocês vai largar o vôlei antes mesmo de sair da faculdade. Vão trabalhar, casar, fazer qualquer outra coisa. Mas para aquelas que se vêem trabalhando com esse esporte, espero que não percam a oportunidade no próximo jogo. Essas partidas contra a Federal foram tidas durante todo o Regional como a final antecipada do campeonato. Olheiros de times como o Osasco, Minas, Rexona, vêm assistir às partidas em busca de boas jogadoras. Jogar bem é a única forma de um dia chegar a Super Liga Feminina e quem sabe à seleção. Mas eu nem estou lhes pedindo isso para o próximo jogo. Só que voltem a ser o time que eu treino e não aquela coisa apática da partida passada!
No vestiário, exaustas e suadas depois do treino puxado, as jogadoras se entreolhavam tensas. Todas pensavam a mesma coisa, mas ninguém tinha coragem de falar. Ninguém até Cacau se manifestar.
-Gente o que estamos esperando, hein? - ela perguntou a suas companheiras - Nós queremos ganhar esse jogo! E descontar a humilhação que passamos no sábado ao perder em casa! Mas todas nós sabemos que sem a Rachel e a Isabel, não vamos conseguir!
-E o que você sugere, Carolina? - perguntou Hélen saindo do chuveiro enrolada na toalha - Que nós aceitemos duas lésbicas no time? Dividindo o chuveiro e o vestiário com a gente?
-Elas fizeram isso até agora e nunca tentaram nada contra nenhuma de nós, pessoal! Pelo amor de Deus, acham o que? Que as duas vão no atacar enquanto tomamos banho? - indagou a líbero irritada com a apatia do time - Se vocês não perceberam ainda, as duas se gostam ao ponto de deixar de jogar vôlei para ficarem juntas! Acham mesmo que vão olhar ou se interessar por alguma de nós?
-Eu concordo com você, Cacau! - disse Luiza, uma das meio de rede - Mas é muito esquisito para gente saber que as duas namoram!
Cacau fez que sim.
-Eu sei que é. Eu também acho. Não to aqui defendendo a Isabel porque ela é minha cunhada, mesmo porque nem temos nos falado desde aquele dia que elas deixaram o CT. Mas porque todas aqui sabemos que ela e a Rachel são excelentes jogadoras - e olhando para Ivna e Reca - Eu não estou desmerecendo vocês duas, meninas. Fomos todas nós que perdemos aquele jogo. Não há únicos culpados. Mas unidas de novo, sabemos que podemos ganhar! E disputar um final de campeonato, já pensaram nisso?
As palavras da líbero tocaram muitos corações no time. As meninas estranhavam o relacionamento entre Rachel e Isabel, mas queriam vencer. E sabiam que Cacau dizia a verdade.
-Eu acho perda de tempo! - opinou Hélen - Elas nunca voltariam a jogar conosco. Ficamos todas contra elas naquele dia. E vocês ouviram que a Rachel disse que não jogava mais.
-Ouvimos, Hélen. Mas eu tenho certeza que ela disse isso sem pensar. Por que todas nós, suas amigas, estávamos a julgando sem piedade - esclareceu Cacau - Eu fui muito idiota naquele dia. Deixei que a mágoa me levasse a fazer coisas que não queria e acabei magoando duas grandes amigas. Mas hoje eu sei que nem eu, nem vocês todas têm o direito de condená-las. Somos amigas e companheiras de time, a vida pessoal delas, só as duas pertence!
-Eu acho que devíamos ir falar com elas - falou Simone - Conversar, pedir desculpas, todas nós. Pedir que as duas voltem e nos ajudem a vencer. Tenho certeza que elas vão aceitar.
A maioria das meninas concordou. Apenas Hélen ficou um tanto relutante.
-Nós precisamos que você também vá, Hélen! - disse Sarah, a líbero reserva - Você era a melhor amiga da Rachel. Tem que nos apoiar!
A mulata percebeu o burburinho de aprovação das outras meninas do time e acabou sorrindo. Apesar de tudo, ela ainda gostava muito de Rachel. Era uma amizade de muitos anos, para deixar tudo morrer assim. Preferia suportá-la com aquela novata metida, a ficar sem falar com a amiga por mais tempo.
-Tudo bem - disse por fim - Nós falaremos com elas!
O grito de comemoração das meninas foi animadíssimo. Havia novamente uma esperança de união e vitória.

 
 Capítulo 28: Amor x Preconceito....
(por Danah  , adicionado em 24 de Abril de 2007)
 

Quando Rachel finalmente acordou, já encontrou Isabel banhada e pronta para o café da manhã. Espreguiçou-se ainda na cama e só então se lembrou da noite anterior. Tinha a vã esperança de que aquilo tudo não tivesse passado de um sonho ruim. Mas precisava levantar e acordar para a dura realidade que teria que enfrentar.
Estava feliz em contar com a companhia e o apoio de Isabel. Sabia que ela estivera ali, ao seu lado, durante toda a noite e só por isso conseguira pegar no sono e dormir tranqüila.
Deixou a água correr solta pelo corpo e limpar de sua mente qualquer dúvida que pudesse restar. Já tinha abandonado a atacante uma vez. E por aquele mesmo time que agora a condenava simplesmente por amar. Não faria aquilo de novo. Por mais que lhe doesse as amigas estarem magoadas com ela, Isabel era mais importante. Era seu amor. O melhor que tinha acontecido na sua vida, em muito tempo. Escolhê-la-ia, caso fosse preciso.
As duas saíram um tanto tensas do quarto, mas só encontraram as meninas no refeitório do CT. Todas sentadas conversando animadamente até elas chegarem.
O silêncio foi total. E aqueles olhares inquisidores as julgaram a todo instante. Ninguém as convidou pra sentar. Ninguém falou com elas. Até mesmo Cacau estava magoada. Talvez não com o fato em si, mas por não terem lhe contado antes.
Rachel e Isabel, um tanto hesitante, se serviram na grande mesa posta para o desjejum e sentaram-se as duas na única mesa desocupada. Parecia que teriam que contar mesmo apenas uma com a presença e companhia da outra.
A levantadora procurou Hélen com os olhos, mas a amiga ainda não tinha chegado. Devia ter demorado a dormir depois da noite anterior. Ela sempre tinha dificuldade de relaxar quando algo saia de seu controle. Fora assim desde o colégio. Nota baixa ou uma prova importante era sinônimo de uma noite inteira em claro.
A situação não continuou muito diferente durante os treinos físicos da manhã. Nada de conversas e o pior, todas as meninas saíram do vestiário quando as duas entraram para colocar a roupa de banho pra natação. Parecia que tinham medo que elas as atacassem.
Rachel se sentou um tanto cansada daquela aversão toda.
-Eu me sinto como se tivesse uma doença altamente contagiosa! - disse desanimada - Como vamos jogar bem assim? A equipe toda dividida?
Isabel fez que não sabia. Sua preocupação estava mais além da de Rachel. Tinha medo que Hélen, em plena crise, tivesse comentado algo com Gustavo ou até mesmo com os pais da levantadora.
-Vamos perder feio assim. E depois, recuperar dentro do ginásio da Federal com a torcida fanática delas presente? É muito difícil. Elas não perdem em casa a mais de dois anos - continuou Rachel triste - E tudo por minha culpa!
A atacante sentou ao lado da namorada.
-Nunca mais diga isso, anjo - disse encarando-a séria - Eu não me sinto culpada de nada. Eu te amo e quero muito ficar com você. Se o time é tão preconceituoso ao ponto de não entender isso, não sei se vale a pena defendê-lo!
Rachel sorriu e abraçou Isabel. Como era possível amar alguém assim, de uma forma tão intensa e crescente? Seu corpo parecia se acalmar na presença do dela ou quando faziam amor, se incendiar. Nunca sentira isso com Alice. Houvera desejo, carinho e talvez até mesmo amor. Mas nada tão forte como era com Isabel.
As duas se beijaram ternamente. Mostrando que estavam ali para se apoiar.
-Eu te amo, sabia? - disse Rachel a encarando com um sorriso - Não quero mesmo ficar sem você!
A atacante sorriu.
-Eu também te amo, anjo. E não se preocupe. Não vai se livrar de mim tão cedo!
Iam beijar-se novamente quando ouviram as palmas na porta do vestiário. Era Hélen. Não mais estarrecida, e sim com um sorriso irônico nos lábios. Entrou as aplaudindo sarcasticamente.
-Muito bonito esse momento íntimo das duas! Parece que apesar de ontem não acabaram com essa pouca vergonha!
-Vejo que você já está bem! - falou Isabel se levantando séria - Já recobrou sua habilidade de ferir as pessoas!
-Ferir as pessoas? - surpreendeu-se a mulata - Quem anda ferindo as pessoas aqui são vocês duas. Se agarrando as escondidas, mentindo para o time inteiro.
-Hélen.. - começou Rachel.
-Eu esperava qualquer coisa dessa novata - interrompeu-a garota. A mágoa e a raiva já aflorando - Mas de você, Rachel? Eu cresci com você! Meu Deus quantas vezes tomamos banho juntas, ou dormimos uma na casa da outra? Várias! Sempre eu, você e Alice! Inseparáveis! E agora você se deixa levar por essa daí?
Rachel achou melhor contar toda a verdade de uma vez.
-Eu não me deixei levar pela Bel. Nos apaixonamos. Da mesma forma que eu e Alice antes de ela morrer naquele acidente. É, Hélen. Pode ser uma grande surpresa pra você, mas a sua melhor amiga aqui, já namorou uma mulher. E foi maravilhoso com ela, como está sendo mais que perfeito com a Isabel.
-Mentirosa! - acusou Hélen - Alice não era assim como você! Anormal! Como você ousa manchar a memória dela?
-Se você prefere não acreditar na verdade, não posso fazer nada, Hélen. Um dia talvez te mostre as cartas de amor, e as fotos que nós tiramos juntas. Daí você pode finalmente acreditar!
-Sabe que eu pensei que tudo era culpa dessa novata. Não fui com a sua cara desde o início - disse Hélen se voltando para Isabel - Mas agora eu vejo que você é tão culpada dessa anormalidade quanto ela, Rachel. Duas vagabundas, se esfregando as escondidas das pessoas. Enganando todo mundo!
A atacante foi detida por Rachel. Sua reação tinha sido partir para cima de Hélen e fazê-la engolir o que dissera.
-Não, Bel! - pediu-lhe a levantadora - É isso que ela quer.
Nesse momento elas perceberam que aquela discussão tinha sido vista de camarote por boa parte do time, parado do lado de fora da porta do vestiário. Várias garotas entraram ao ver a intenção de Isabel de agredir Hélen.
-É bom você pensar no que vai fazer! - disse Simone - Por que não vai bater numa de nós e se safar dessa ilesa!
A ovação foi total atrás da garota. As meninas se uniriam para defender Hélen e quem quer que fosse.
-Nenhuma de vocês vale o esforço - disse Isabel - Se dizem amigas e compreensivas, mas julgam as pessoas nas horas em que elas mais precisam de vocês. Se deixam levar pelo preconceito e pelo ciúme bobo da Hélen e ficam ai, com essa pose de donas da verdade, como se eu e Rachel fossemos duas criminosas ou devêssemos explicações da nossa vida pessoal a vocês!
-Nós não queremos lésbicas no nosso time! - alguém disse.
Mais ovação e concordância entre as jogadoras.
-Não se preocupem! - falou Rachel olhando decepcionada para suas amigas - As lésbicas aqui não têm mais a mínima vontade de permanecer aqui com vocês!
Hélen se surpreendeu de ouvir a amiga dizer aquilo. Sabia que Rachel considerava o time sagrado.
-Você vai nos deixar por causa dela? - perguntou perplexa.
Rachel trocou um olhar afetuoso com Isabel. Ele dizia claramente que estavam juntas. Com ou sem o time.
A levantadora pegou na bolsa a tarja de capitã que usava durante as partidas e deixou sobre o banco. Depois segurou a mão de Isabel carinhosamente, mas firme em sua decisão.
-Eu não tenho porque ser capitã e liderar uma equipe que não me aceita e comenta de mim pelas costas - disse séria olhando para cada uma das garotas ali presentes - Eu amo a Isabel, ela é minha namorada e nada do que vocês digam vai mudar isso. E já que deixaram bem claro que não querem lésbicas no time, a gente está mesmo se retirando! Desejo boa sorte pra vocês! Mas assim, eu não jogo mais!
As duas saíram ainda de mãos dadas do vestiário. Estavam tristes com o que acontecera, mas sabiam ter sido a decisão correta.
Marilena não opôs resistência à saída de ambas. Embora quisesse ganhar da Federal, sabia como era difícil a situação que Rachel e Isabel estavam vivendo. Ela mesma já sofrera preconceito.
-Fico triste que as coisas tenham chegado a esse pé! - disse quando já estavam no portão do CT. Isabel e Rachel esperando Gaby e Roberta que ficaram de ir buscá-las.
-Nós também, Marilena. Mas não tem muito clima pra jogo. As meninas estão com raiva.
-É, espero poder voltar a atenção delas para a partida ou vamos perder feio no sábado - disse a técnica abatida - Bom, desejo tudo de bom pra vocês! Tenho que ir.
-Obrigada, técnica! Por tudo! - disse a atacante.
A treinadora sorriu.
-Você não precisa mais me chamar assim, Isabel. Chame só de Marilena.
Isabel fez que sim sorrindo.
-Marilena, então.
A técnica entrou no CT e pouco depois Roberta e Gabriela chegaram. Isabel tinha contado sucintamente o que houvera a sua prima, então não fizeram tantas perguntas assim. Só queriam saber se estavam bem.
-Tudo bem sim, Gaby. Na medida do possível.
A estada na casa da prima foi curta. O suficiente para reservar duas passagens ainda naquele dia para a capital e almoçarem alguma coisa.
-Vocês podiam ficar mais tempo! - disse Gabriela.
-Melhor não, prima - opinou Isabel. Era perspicaz o suficiente para perceber que Rachel não gostava muito da companhia de Roberta. Mesmo esta namorando Gabriela - Temos que consertar as coisas em casa, antes que essa bomba exploda lá também!
No fim da tarde, já sentadas e acomodas no ônibus de viagem, foi inevitável tocar no assunto.
-Acho que agora não temos outra saída não é? - perguntou Rachel enquanto descansava a cabeça do ombro de Isabel - Temos que contar às nossas famílias, antes que outra pessoa conte.
A atacante fez que sim e revelou seu medo de que Hélen tivesse feito algo assim.

-Eu também pensei nisso ontem - admitiu Rachel - Mas ela tendo dito ou não, é algo com que vamos ter que lidar.
-Eu sempre quis falar disso com a minha mãe, mas você acha que está preparada, amor? - quis saber Isabel - Nossas famílias podem agir do mesmo jeito que o time!
-É, eu sei. Mas já que tanta gente já sabe, melhor admitirmos tudo logo de uma vez. Sei que posso sofrer, mas prefiro que seja o quando antes.
-Prefere contar pro seus e eu pro meus?
-Não! Prefiro reunir todo mundo e contar de uma vez só. Acho que vou até convidar o Gui. Alguém que já sabe pode nos apoiar bastante.
-É. Eu chamo o Ed e a Rebeca. Como vamos fazer isso, Rachel? Temos que inventar uma desculpa.
-Acho que a de um jantar cai bem. Minha mãe conhece a sua, então não vai estranhar.
Isabel fez que sim. Estava apreensiva com o resultado daquele jantar, mas feliz ao ver a namorada tão decidida.
-Sabe que eu tive vontade de beijar você quando enfrentou o time todo mais cedo? - revelou sorrindo.
Rachel riu.
-Até nessas horas você pensa em beijos?
A atacante fez que sim.
-Não consigo não pensar em carinhos com vocês! É mais forte que eu!
A levantadora a beijou, ali em pleno ônibus. Sem se importar com as pessoas das outras cadeiras.
-Viu? Não tem como não amar você!
Isabel sorriu e a abraçou forte. Sabia que a tempestade estava apenas começando a cair. E que mais surpresas desagradáveis poderiam surgir. Tinha que pensar na reação de suas famílias, em como ficaria sua bolsa de esportes, já que saíra do time e na sua vingança contra Malu por aquela armação. Sua vontade era publicar o vídeo na hora, mas sabia que tinha que consultar o primo antes.
Contudo, mesmo cansada da noite sem dormir e abatida devido aos problemas, sentir Rachel ali tão perto, lhe dava forças. Ela fora perfeita com o time. As enfrentara e a escolhera. O que mais ela podia querer? Tinha a mulher que amava ao seu lado. E com ela enfrentaria tudo que as impedisse de serem felizes juntas. O time fora apenas a ponta do iceberg. Mas ela estava mais que disposta a lutar, afinal, era sua felicidade com Rachel que estava em jogo. E disso, Isabel não tinha mesmo intenção de abrir mão!
 


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Capítulo 29: Abrindo o jogo.....
(por Danah  , adicionado em 27 de Abril de 2007)
 

Rachel nunca pensou que se sentira tão tensa na vida. Tinha certeza que Isabel devia estar com a mão dolorida tamanha a força com que segurava a dela. As famílias estavam ali defronte, sentadas no sofá, as ouvindo atentamente.
Paulo não pudera ir ao jantar, estava viajando a trabalho. Mas Carmem, Hugo, Renato, Beatriz e Gustavo escutaram um tanto surpresos suas revelações.
Pareceu que o tempo parou, tamanho o silêncio que reinou quando as duas se calaram e esperaram as reações. Sentados perto das duas atletas, Ed, Rebeca e Guilherme as apoiavam. A simples presença de alguém que já as aceitava era reconfortante.
Rachel falara primeiro. Sobre ela e Alice, sobre os reais motivos de sua depressão quando ela veio a falecer, as dúvidas, o medo de contar e ser criticada, e como conhecera Isabel e ambas tinham se envolvido.
Depois a atacante tomou a palavra. Explicou que sempre gostara de meninas e que os namorados eram a maioria de fachada, falou da insegurança, da sensação de anormalidade que sentira ao se descobrir assim e de toda a situação que as tinha levado a lhes contar aquilo tudo, de suas crises com Rachel, a presença de Roberta e o time.
-Eu achei mesmo que tinha alguma coisa diferente entre vocês quando a Rachel foi tão simpática com você Bel, logo de cara! - disse Hugo timidamente - Mas não achei que seria algo assim.
Beatriz estava muito surpresa. Nunca esperara isso na vida. Sua única filha gostava de mulher? Meu Deus que loucura era essa?
O velho sermão sobre aquilo tudo ser uma fase muito comum na adolescência, que passaria, ou apenas um produto da curiosidade, teve a participação dos três pais presentes.
-Mãe, pai, não é uma fase - esclareceu Rachel pacientemente - Eu não pretendo namorar homens. Mesmo porque eu amo a Isabel e é com ela que eu quero ficar!
-Minha filha você é muito nova ainda.... - começou Renato.
-Você também era quando se casou com a mamãe! - disse Gustavo intercedendo pela irmã - Olha, eu nunca achei que você era gay, maninha. A Hélen me enchia a paciência com ciúmes de vocês duas, agora entendo porque se reaproximaram. Não quero saber o que vocês fazem no quarto ou nenhum detalhe disso tudo. Desde que vocês esteja feliz, está tudo bem pra mim.
A reação do nadador foi surpreendente para todos. Rachel sorriu agradecida. Não era amiga de Gustavo, tipo de conversarem sobre as coisas. Mas o rapaz se mostrara além do preconceito. E ela sentiu que o amava mais ainda por isso.
Os dois se abraçaram e ele se voltou para Isabel com uma cara de bravo.
-Cuida dela viu, mocinha? Ou vai se ver comigo! - disse sorrindo.
A atacante também sorriu.
-Pode deixar. Vou cuidar dela direitinho.
-Filha - disse Carmem - Vocês duas tem noção do preconceito que vão enfrentar? As pessoas condenando, olhando, apontando vocês, como o próprio time fez? Eu entendo que tenham muito carinho uma pela outra, mas deviam pensar nisso com mais calma, antes de tomar qualquer decisão.
-Não tem mais o que pensar mãe. O time sabe e daqui a pouco todo o campus vai saber. Só por isso nós decidimos contar a vocês, para que não soubessem por outras pessoas. Não estamos aqui pedindo permissão pra namorar ou ficarmos juntas. Isso não está em questão e não são vocês que decidem! - Isabel disse firme e voltando-se para Beatriz e Renato - Eu amo filha de vocês. Podem achar que é um capricho de adolescente, mas não é. Entendo se não quiserem mais a minha presença nesta casa, sei que deve ser difícil de aceitar algo assim. Por isso não estamos pedindo isso.
-Só queremos o respeito de vocês, pai! - completou Rachel - Não precisam nos apoiar, levantar bandeira nenhuma. O que queremos é que continuem a nos tratar como filhas.
As reações não foram tão violentas, mas também não brandas. Os pais de Rachel, a mãe principalmente, parecia um tanto inconformada com a história.
Para Carmem, a mágoa maior era não ter sido informada de tudo antes. Ela se considerava amiga de Isabel e aquela falta de confiança da filha a estava matando.
As duas preferiram ir dormir na casa de Rebeca aquela noite. A secretária lhe cederia o quarto de hóspedes, e elas assim, esperavam dar um tempo mínimo para o impacto da notícia diminuir.
Naquela noite, quando já estavam deitadas tranquilamente na cama que dividiam na casa de Rebeca, as duas pela primeira vez na vida se sentiram livres. Sem necessidade de se esconder. De ser privar de certas coisas.
Nenhuma delas esperava que os pais aceitassem aquela notícia tão rapidamente. Mas também não estavam preocupadas em demasiado. Se amavam demais e aquilo as fortalecia e dava a certeza de que queriam e iriam permanecer juntas.
Os beijos até começaram a ficar mais carinhosos e o desejo foi surgindo, mas antes mesmo de pensarem em fazer amor, uma vozinha na porta do quarto, chamou sua atenção.
Era Duda. Parada ali de pijama, segurando um lençol, quase a arrastar no chão.
-Bel quer dormi aqui contigo! - disse ela bocejando de sono.
A atacante se voltou com um sorriso para a levantadora.
-Vem pra cá, vem Duda! - chamou Rachel sorrindo e piscando pra namorada - Acho que vamos ter que continuar depois!
Isabel fez que sim, ajudando a irmã subir na cama e se acomodar confortavelmente entre elas. As mãozinhas segurando uma de cada uma delas.
Ainda sorrindo as duas se deitaram.
-Boa noite, Bel! Boa noite, Kel! - ouviram Duda dizer antes de cair no sono.
-Boa noite, Duda! - disseram juntas.
Uma noite serena e tranqüila, para finalizar um dia cheio de emoções.

***

A derrota da equipe de vôlei feminino da Metropolitana não foi nenhuma novidade nem mesmo para Marilena. O time estivera completamente fora do jogo. Como se estivesse na quadra, mas com a cabeça longe.
Ivna e Reca, respectivamente a levantadora e a atacante reserva, até tentaram substituir Rachel e Isabel, mas as duas por mais que se esforçassem, ainda estavam muito aquém das duas jogadoras.
Faltou animação, paixão e vontade de ganhar. Rachel como líder que era, empolgava as companheiras e Isabel chamava o jogo pra si. Nos momentos mais críticos da partida eram pra ela as bolas. Era ela que tinha a missão de colocá-las no chão.
A coisa até que não começou tão ruim e elas conseguiram ganhar com muito esforço o primeiro set. Mas depois, parece que deu um apagão no time. As bolas de ataque não caiam, a defesa não funcionava, o saque ficava na rede, os bloqueios não rendiam como antes. E claro que jogando assim, foi questão de tempo perder os três sets seguintes e consequentemente o jogo para a equipe da Federal. Uma vitória do time visitante, dentro do ginásio da Metropolitana.
Marilena não teve coragem de encarar a ex-namorada. Letícia comemorava a vitória com suas jogadoras e apenas sorriu para a técnica derrotada.
Depois da folga do domingo, a bronca no treino de segunda foi grande. A treinadora nunca falara tão sério e nem fora tão dura antes. Não houve palavras delicadas pra nenhuma das atletas e a ordem do dia era treinar muito.
-Eu sei que a maioria de vocês vai largar o vôlei antes mesmo de sair da faculdade. Vão trabalhar, casar, fazer qualquer outra coisa. Mas para aquelas que se vêem trabalhando com esse esporte, espero que não percam a oportunidade no próximo jogo. Essas partidas contra a Federal foram tidas durante todo o Regional como a final antecipada do campeonato. Olheiros de times como o Osasco, Minas, Rexona, vêm assistir às partidas em busca de boas jogadoras. Jogar bem é a única forma de um dia chegar a Super Liga Feminina e quem sabe à seleção. Mas eu nem estou lhes pedindo isso para o próximo jogo. Só que voltem a ser o time que eu treino e não aquela coisa apática da partida passada!
No vestiário, exaustas e suadas depois do treino puxado, as jogadoras se entreolhavam tensas. Todas pensavam a mesma coisa, mas ninguém tinha coragem de falar. Ninguém até Cacau se manifestar.
-Gente o que estamos esperando, hein? - ela perguntou a suas companheiras - Nós queremos ganhar esse jogo! E descontar a humilhação que passamos no sábado ao perder em casa! Mas todas nós sabemos que sem a Rachel e a Isabel, não vamos conseguir!
-E o que você sugere, Carolina? - perguntou Hélen saindo do chuveiro enrolada na toalha - Que nós aceitemos duas lésbicas no time? Dividindo o chuveiro e o vestiário com a gente?
-Elas fizeram isso até agora e nunca tentaram nada contra nenhuma de nós, pessoal! Pelo amor de Deus, acham o que? Que as duas vão no atacar enquanto tomamos banho? - indagou a líbero irritada com a apatia do time - Se vocês não perceberam ainda, as duas se gostam ao ponto de deixar de jogar vôlei para ficarem juntas! Acham mesmo que vão olhar ou se interessar por alguma de nós?
-Eu concordo com você, Cacau! - disse Luiza, uma das meio de rede - Mas é muito esquisito para gente saber que as duas namoram!
Cacau fez que sim.
-Eu sei que é. Eu também acho. Não to aqui defendendo a Isabel porque ela é minha cunhada, mesmo porque nem temos nos falado desde aquele dia que elas deixaram o CT. Mas porque todas aqui sabemos que ela e a Rachel são excelentes jogadoras - e olhando para Ivna e Reca - Eu não estou desmerecendo vocês duas, meninas. Fomos todas nós que perdemos aquele jogo. Não há únicos culpados. Mas unidas de novo, sabemos que podemos ganhar! E disputar um final de campeonato, já pensaram nisso?
As palavras da líbero tocaram muitos corações no time. As meninas estranhavam o relacionamento entre Rachel e Isabel, mas queriam vencer. E sabiam que Cacau dizia a verdade.
-Eu acho perda de tempo! - opinou Hélen - Elas nunca voltariam a jogar conosco. Ficamos todas contra elas naquele dia. E vocês ouviram que a Rachel disse que não jogava mais.
-Ouvimos, Hélen. Mas eu tenho certeza que ela disse isso sem pensar. Por que todas nós, suas amigas, estávamos a julgando sem piedade - esclareceu Cacau - Eu fui muito idiota naquele dia. Deixei que a mágoa me levasse a fazer coisas que não queria e acabei magoando duas grandes amigas. Mas hoje eu sei que nem eu, nem vocês todas têm o direito de condená-las. Somos amigas e companheiras de time, a vida pessoal delas, só as duas pertence!
-Eu acho que devíamos ir falar com elas - falou Simone - Conversar, pedir desculpas, todas nós. Pedir que as duas voltem e nos ajudem a vencer. Tenho certeza que elas vão aceitar.
A maioria das meninas concordou. Apenas Hélen ficou um tanto relutante.
-Nós precisamos que você também vá, Hélen! - disse Sarah, a líbero reserva - Você era a melhor amiga da Rachel. Tem que nos apoiar!
A mulata percebeu o burburinho de aprovação das outras meninas do time e acabou sorrindo. Apesar de tudo, ela ainda gostava muito de Rachel. Era uma amizade de muitos anos, para deixar tudo morrer assim. Preferia suportá-la com aquela novata metida, a ficar sem falar com a amiga por mais tempo.
-Tudo bem - disse por fim - Nós falaremos com elas!
O grito de comemoração das meninas foi animadíssimo. Havia novamente uma esperança de união e vitória.

***

Capítulo 30: Convivendo com a diferença...

 

Isabel continuou a trabalhar normalmente na livraria de sua mãe. Desde a saída de Sarah, mulher de Felipe e um dos braços direitos de Carmem, devido à licença maternidade, a empresária estava precisando de todo auxílio possível.
Era difícil resistir, mas ela e Rachel decidiram não se tocarem ou beijarem enquanto estivessem na Gênius. O clima ainda estava tenso com relação à revelação das duas e a atacante sabia que a mãe estava magoada por ela não ter lhe revelado antes aquela parte de sua vida. Estavam se falando bem menos que o normal e a garota nem ousou subir até a sala da mãe naquela terça-feira, como também não fizera no dia anterior.
Carmem observava a filha trabalhando lá embaixo várias vezes durante o dia. Percebeu coisas que já sabia há muito tempo, como a habilidade dela em atender os clientes e os deixar fascinados pelos livros. Ou a forma como era gentil e por isso mesma, muito querida pelos funcionários da loja.
Além disso, a empresária flagrou a filha em vários momentos, conversando com Rachel. Ficava evidente o carinho entre as duas. O brilho no olhar, os sorrisos estampados no rosto e o cuidado que tinham uma com a outra.
Foi inevitável a empresária pensar que mesmo durante todos os seus anos de casamento com Paulo, nunca tivera aquela cumplicidade com ele. Durante o namoro rolou muito desejo, logo depois ela engravidou de Hugo, tiveram que casar cedo e alguns anos depois, quando ela menos esperava, engravidou de Isabel. O dia a dia e as rotinas dela e do marido, acabaram por afastá-los. E o final daquela história já era nem conhecida.
Carmem estava tão entretida em seus pensamentos que demorou a atender a chamada da secretária.
-Diga, Bianca?
-O Sr. Alves na linha.
-Sr. Alves? - estranhou ela.
-Guilherme Alves - esclareceu a secretária.
-Ah, pode passar - disse a empresária lembrando que trocara telefones com o irmão de Rachel, depois do jantar maravilhoso que ele lhes preparara naquela noite fatídica. O rapaz tinha muito potencial.
-Carmem? - ela reconheceu a voz grossa, mas agradável do chefe de cozinha.
-Guilherme! - disse ela sorrindo da informalidade dele - Que bom que ligou. Estava me perguntando quando teria o privilégio de saborear outro jantar magnífico daquele.
O rapaz sorriu.
-Estou a sua disposição - ele disse sempre simpático - Mas liguei mesmo para saber como estão as coisas entre você e Isabel.
Um silêncio constrangedor e a empresária desabafou:
-Acho que nunca me senti tão distante da minha filha como agora. E o pior que não sei como contornar tudo isso.
-Não se preocupe, as coisas vão aos poucos voltando ao normal. Ainda está magoada com ela?
-Não sei se a palavra é magoada. Acho que estou um pouco chateada. Eu era ou achava que era a mulher mais importante da vida dela. E descobri que ela tem uma irmã mais nova e agora que namora a sua irmã. Acho que estou com um pouco de ciúmes da minha filha! - admitiu Carmem.
O rapaz apreciou a sinceridade dela.
-Eu creio que isso é bem comum, Carmem. Já ontem ouvi minha mãe reclamar que Rachel não pára mais em casa. Só vive pra cima e pra baixo com a Isabel - revelou ele com um sorriso - Acho que vocês duas nem estão magoadas realmente, Mais com medo de perder seus lugares privilegiados de mães!
-É. Eu acho que estava preparada pra dividi-la com um namorado e no futuro com um marido. Mas esse negócio de namorada mudou tudo. Elas não se desgrudam mesmo.
-Por que você não conversa com a Isabel? Fale pra ela o que está me contando. Tenho certeza que ela vai entender.
-Eu não sei, Guilherme. Tenho tanto medo de me aproximar. De invadir o espaço dela.
-Você é mãe, Carmem. Mais que natural fazer isso - insistiu o chefe de cozinha - Posso sugerir um jantar?
-Jantar?
-É. Nós quatro. Daí vocês conversam e se entendem de uma vez. O que acha?
-Eu acho uma ótima idéia. Faz tempo que eu não saio pra jantar simplesmente para sair. Sempre se trata de negócios.
-Pois bem, eu convido as duas e você vai ser a surpresa da noite. Não comente nada com elas.
-Não se preocupe. Mal estamos nos falando mesmo.
O desânimo na voz dela, estranhamente o incomodou bastante.
-Nada de tristeza, ok? - disse tentando animá-la - Vamos resolver as coisas. E depois, marcamos outro jantar, mas apenas para nós dois.
Carmem sorriu. Seria possível que estivesse sendo cortejada pelo filho mais velho de sua amiga? E o pior, gostando disso!?
-Você não devia perder seu tempo chamando uma velha pra sair, Guilherme - disse ela procurando ser racional.
Ele sabia que a idade interferiria.
-Eu não estou convidando uma velha. Mas uma mulher muito interessante que eu conheci há poucos dias. E não venha me falar de diferença de idade, ou que podia ser a minha mãe.
-Mas é a pura verdade ué.
-Eu sei. Mas você não é. E eu não penso mesmo na Dona Beatriz como eu penso em você.
Carmem sentiu-se ruborizar.
-E como esse excelente chefe de cozinha anda pensando em mim? Se é que posso saber...
Guilherme sorriu e lembrou-se da figura de Carmem no jantar. Sempre tão elegante, mas com um misto de simplicidade. Em segundos sua voz podia mudar de carinhosa, para firme e cheia de autoridade. Aquilo o fascinara, assim como também o porte altivo, bem delineado da empresária. Fora difícil se concentrar com ela ali, perto, conversando com sua mãe e de vez em quanto lhe soltando olhares cheios de curiosidade.
-Não vou entrar em detalhes, mas lhe garanto que não é de uma forma muito inocente - disse por fim o rapaz.
Os dois riram. Mesmo ao telefone, era mais que evidente o clima de envolvimento entre ambos. Fora assim desde os olhares no jantar. Pena que a revelação das garotas os tivessem distraído um pouco. A Carmem principalmente.
-Quando você vai marcar o jantar? - perguntou ela curiosa.
-Pode ser na quinta?
-Por mim tudo bem.
-Vou falar com as meninas e confirmo com você.
-Tudo bem.
-Boa noite, Carmem.
-Boa noite, Guilherme.
-Ah, beijo pra você.
A empresária sorriu.
-Outro pra você.
Os dois desligaram o telefone e passaram aqueles vários minutos encarando o aparelho, como se esperassem que ele tocasse. Seria possível que aquilo estivesse mesmo acontecendo? Ambos se perguntaram perplexos.

***


Gabriela estava bem mais tranqüila depois da primeira fase do vestibular. A prova fora muito boa e a pontuação da garota também, então tudo indicava que ela seria aprovada para a fase seguinte, de provas específicas.
Mesmo ainda tendo que estudar, a adolescente reservara-se o direito de um tempo maior de folga e constantemente estava dormindo no apartamento de Roberta.
Nunca pensara que se envolveria com uma garota. Embora tenha ficado curiosa depois que vira a prima aos beijos com Mirla. Várias de suas colegas admitiam secretamente que os beijos de uma mulher eram bem melhores que os de qualquer cara e Gabriela ficara com mais vontade ainda de provar. Se ao menos ela e Isabel não fosse tão próximas e quase irmãs! Pediria a prima aquele favor!
A primeira vez que vira Roberta, não pode deixar de admirar sua beleza. Os cabelos cor de fogo, as sardas no rosto, o corpo de violão, faziam da ruiva uma mulher de chamar atenção. E embora a estudante de enfermagem, desse preferência as meninas, como Gabriela pode notar durante a viagem que fizeram para visitar Isabel, o sexo masculino também a notara como uma mulher pra lá de interessante.
Agora por mais incrível que pudesse parecer, aquele mulherão estava ali do seu lado e era completamente seu. Tinham começado a namorar oficialmente e ambas estavam pra lá de felizes com aquilo.
Roberta sorriu ao flagrar Gabriela ela a olhá-la.
-Vai me deixar envergonhada assim! - disse.
A garota sorriu.
-Eu adoro olhar você. Te acho tão linda, Rô! - disse acariciando o corpo nu da namorada - Não me canso de olhar.
-Ih nem me vem com essa! Sua prima me disse isso e foi embora! - falou a ruiva.
Gabriela imediatamente ficou séria. Aquela relação da prima com sua namorada nunca a incomodara antes. Só não conseguia parar de se perguntar se Roberta fazia comparações.
-Que foi, Gaby? - perguntou a estudante de enfermagem se sentando, ao perceber que a namorada se afastara - Eu falei alguma bobagem?
-Você sempre tem que falar da Isabel. Invariavelmente toca no nome dela quando estamos a sós - explicou a garota - Tem certeza que é mesmo comigo que quer estar, Roberta?
A formalidade de Gabriela foi suficiente para a ruiva perceber que ela estava chateada.
-É claro que eu quero estar é com você! Que dúvidas malucas são essas agora?
-Eu não sei - admitiu Gabriela - Às vezes eu sinto que você me compara com a Isabel. E isso meio que me diminui. Eu não sou a minha prima, Roberta. Estou gostando mesmo de você, mas não quero ser comparada a ninguém.
Roberta sorriu compreensiva e se aproximou da adolescente. Acariciou-lhe o rosto e beijou-lhe delicadamente os lábios.
-Gaby, amor, entende uma coisa, por favor. Eu amo você! Não posso apagar o que vivi com a sua prima, mas eu nunca amei a Isabel. Nunca fui fiel a ela como estou sendo com você. Nós saíamos com outras pessoas. Mas quando eu me envolvi com você, foi inesperado e completamente diferente.
-Diferente em que?
-Diferente em tudo! Eu me senti perdida, nervosa, com medo de ser rejeitada por você! Por isso pedi a Isabel pra conversar com você, Gaby - e puxando a garota para mais perto - Eu gosto tanto de você, sabia? Nunca pensei que ia me envolver tanto assim com alguém, mas aconteceu e a única pessoa que eu quero no mundo agora é você!
Gabriela sorriu com aquelas palavras e foi sua vez de beijar Roberta.
-Mesmo eu não sendo tão experiente quando a Isabel? - perguntou ela entre beijos.
Sentiu a ruiva pegando uma de suas mãos e levando para o meio das próprias pernas.
-Você é perfeita pra mim! - disse num sussurro.
A estudante tocou a namorada e sentiu-a estremecer.
-Vem, faz amor comigo faz! - pediu Roberta se deitando na cama e se entregando a garota.
-Faço sim! Quantas vezes você pedir, Rô! - disse ela se deitando sobre a ruiva e iniciando mais um ardente e apaixonada sessão de amor.

***

Isabel e Rachel estavam de saída da casa de Rebeca, quando viram surpresas, uma verdadeira multidão de garotas as esperando do lado de fora. Todas com os abrigos esportivos do time de vôlei da Metropolitana. Cacau e Hélen a frente das outras.
A levantadora e a atacante não souberam dizer como elas descobriram que estavam hospedadas na casa da secretária, e nem também o motivo daquela visita inesperada. Não se lembravam de ter deixado nada por falar.
-Precisamos muito falar com vocês! - começou Cacau.
-Não fazemos idéia do que vocês poderiam querer conosco! - disse Isabel encarando as ex-companheiras - Já expulsaram a gente do time, vão querer que saiamos da cidade também?
Hélen trocou um olhar com Cacau.
-Nós não viemos aqui brigar, Isabel! - disse a mulata.
A atacante sorriu irônica.
-Desde quando eu virei Isabel pra você, Hélen? Deixei de ser a novata?
A oposto respirou fundo. Tinha vontade de falar uns bons desaforos para aquela garota. Mas precisava pensar no time e em Rachel. Se sua amiga gostava dela, algo de bom a novata tinha que ter.
-Se você vai mesmo namorar a minha amiga, acho que mais cedo ou mais tarde vou ter que te tratar pelo nome né? - disse ela encarando Rachel.
A levantadora sorriu.
-Isso aqui é um pedido de desculpas?
As meninas em peso fizeram que sim.
-Nós sabemos que fomos muito baixas com vocês! - disse Simone - Queremos mesmo que voltem a jogar com a gente!
-É temos certeza que com vocês junto da gente, podemos ganhar da Federal - completou Sarah.
Ao contrário de Rachel, que sorria com a novidade, Isabel se manteve fria, séria e impassível.
-Você não diz nada, Isabel? - perguntou Luiza - Nossas desculpas não são só pra Rachel. São pra você também.
Rachel encarou a namorada. Sabia só pelo olhar que trocaram que ela não estava tão disposta a perdoar o que ocorrera assim facilmente.
-Amor - disse a levantadora sem se preocupar com a presença das outras jogadoras - As meninas querem que voltemos a jogar com elas. Você não ta feliz?
-As meninas foram as primeiras a condenar a gente - disse a atacante sem deixar de encarar as outras atletas - A julgar e deixar claro que nos achavam nocivas ao time.
-Nós percebemos que erramos, Isabel! - disse Reca - Por isso viemos aqui. Pra pedir desculpas e tentar reverter o que fizemos.
-Eu não sou idiota, sabiam? - falou a atacante irritada com aquele papo - Vocês podem ter vindo aqui querer bancar as amigas que se arrependeram, mas isso não cola pra mim. Eu sei que estão aqui porque sabem que precisam de nós pra ganhar da Federal. Não precisam ser hipócritas comigo!
Rachel estranhou muito a reação de Isabel. Achava que o que ela mais queria no mundo era voltar a jogar, mas naquele momento percebera que a mágoa da namorada era bem maior que a sua.
-Você não precisa ser rude conosco, Isabel! - disse Hélen - Viemos aqui em paz. Pra ajeitar as coisas. Mas se você não quer, nós entendemos perfeitamente.
-Eu não acho que você possa dizer a qualquer pessoa que ela não pode ser rude, Hélen - rebateu Isabel - Você é a pior de todas! A que mais foi preconceituosa e o pior com a sua melhor amiga!
A levantadora notou que aquela conversa tinha tudo para virar uma discussão e achou melhor acabá-la por ali mesmo. Deixou claro as amigas que gostara da ação delas, mas que ela e Isabel precisavam conversar. Não podia decidir as coisas sozinhas nem impor sua decisão a namorada.
Um tanto desanimadas as meninas entenderam e as deixaram sozinhas. O caminho para a livraria foi de muita conversa entre as duas.
-Bel, elas se arrependeram! - insistia Rachel - Porque você não quer ceder?
-Porque fui eu que tive que te consolar quando você chorou a noite toda pelo que elas fizeram com você! E eu te vi sofrer e sofri ainda mais por isso, Rachel! - desabafou a garota - Como você quer que eu esqueça isso assim? De uma hora pra outra?
-Eu sei, amor. Eu não to dizendo que a gente não sofreu. Mas que isso pode ser um novo começo! Acha que eu não sei que elas nos querem também porque precisam de nós pra derrotar a Federal? Eu sei! Mas e daí? Eu quero mesmo é voltar a jogar!
-Quer fazer parte de um time que te traiu? Você, a capitã? Acha mesmo que vai haver mudanças com relação a nós? Que vamos ser menos mal vistas se voltarmos a jogar? Elas são umas oportunistas, Rachel! Querem apenas vencer e por isso nos procuraram.
-Você está sendo muito cabeça dura, Isabel!
-Você que está sendo muito coração, Rachel. - disse a atacante - Eu entendo. Elas são suas amigas e por te amar tanto como eu te amo, não posso te impedir de voltar a jogar com elas, meu anjo.
-Mas você?
-Eu não volto. Não vou vencer com o time que não me aceita.
-Isabel..por favor..
A garota tocou os lábios da namorada com as mãos, fazendo-a calar.
-Eu amo você mais que tudo, ta? Mas isso não muda ou influi na minha decisão. Não me peça pra mudar de idéia ou vou me chatear com você.
Rachel se calou. Sabia que não adiantava insistir. Isabel não cederia e elas acabariam brigando, o que ela não queria de forma alguma.
-Você vai ficar magoada se eu voltar? - perguntou timidamente.
-Não, anjo. É o seu time, suas amigas. Acho normal você querer voltar.
Rachel abraçou e beijou a namorada, aproveitando que estavam paradas em um sinal.
-Você vai me ver jogar? - perguntou.
Isabel sorriu.
-Claro que eu vou, Kel. Mas não me pede pra torcer pro seu time ta? Você sabe mais que ninguém que não dá.
A levantadora fez que sim.
-Torce só por mim.
As duas sorriram e se beijaram novamente.
-Pra você, minha torcida e amor são eternos e incondicionais!
-É? Por isso que eu te amo tanto!
Risos e mais beijos.
Rachel comunicou ao time e à técnica que estava de volta naquela mesma tarde. As meninas adoraram saber e Marilena mais ainda. Ficou triste por Isabel não ter aceitado voltar, mas entendia o lado a garota. Pelo menos tinha sua levantadora de volta. Aquilo lhe dava mais esperanças de ganhar.
As duas decidiram não conversar mais sobre o assunto. Isabel trabalharia na livraria e Rachel voltaria a treinar. Cada uma respeitando a decisão da outra. Ficariam separadas devido às rotinas diferentes, mas juntas todo o tempo livre que tivessem.
Finalmente ambas pareciam ter percebido que amar é muito mais que estar perto ou concordar, é conviver com a alteridade e aprender a ceder e aceitar a individualidade do outro. E ter noção disso, nós sabemos, já era mesmo um grande passo.

 


Capítulo 31: Propostas tentadoras...

 
Isabel e Ed tinham mesmo decidido descontar o que Malu fizera com a garota e Rachel. Sabiam que expondo o vídeo que haviam gravado com o rapaz, ela perderia o emprego, mas os dois tinham percebido que a universidade podia não ser tão condescendente com o garoto. Por isso resolveram fazer a coisa de uma forma diferente.
Ed sempre fora bom em computação e com paciência e alguns programas, conseguiu modificar o vídeo, de forma que sobre seu rosto aparecesse sempre uma tarja preta, enquanto o de Malu continuava exposto.
A atacante queria desmoralizar a preparadora, transmitindo o tal filme em pleno jogo da Metropolitana, mas não podia fazer isso com Rachel. Aquilo acabaria atingindo o time, e embora ela não se preocupasse com as outras garotas, a namorada estava mesmo empolgada com a volta às quadras.
A oportunidade perfeita seria a reunião semestral de professores, que segundo o informado Ed, aconteceria logo depois do fim do campeonato Regional. Como ela mesma se prometera antes, Malu pagaria caro pelo que fizera.
Outra coisa, porém andava perturbando os pensamentos de Isabel nos últimos dias. Ela recebera um telefonema de sua antiga treinadora, Verônica ouvira falar que ela não jogaria mais pela Metropolitana e decidira convidá-la a voltar a defender a Estadual.
A garota ficou surpresa de como as notícias corriam mesmo nos bastidores dos campeonatos universitários. Fazia poucos dias que ela informa isso a Marilena e sua ex-técnica já sabia!
-Eu soube dos motivos que te fizeram desistir, Bel! - disse-lhe ela ao telefone - E entendo perfeitamente. Não posso prometer uma reação diferente das meninas, mas em contrapartida elas já te conhecem há mais tempo. Jogaram dois anos com você e são suas amigas. Acho que a adaptação seria mais fácil.
-É eu acho que nesse ponto você tem razão, Verônica. Mas o caso é que eu estou pensando em mudar de curso e a Estadual não oferece Administração de empresas. E ambas sabemos que não posso estudar numa universidade e jogar por outra!
A ex-treinadora ficou hesitante.
-Essa sua decisão, não é passível de mudança? - perguntou ela - A Estadual está se dispondo a te oferecer uma bolsa integral, Bel. Não paga nada pra estudar e ainda tem direito de alojamento esportivo, ou seja, o melhor do campus, já que são quartos únicos!
A garota não pode deixar de pensar que aquilo era tentador. Ao menos não daria despesa alguma a sua mãe e podia voltar a trabalhar com Tio Rafael na Editora Gênius. O chato seria ficar um tanto longe de Rachel e da família. Valeria à pena voltar?
-Eu confesso que a sua proposta me tenta, Verônica. Mas não posso decidir nada assim. Tenho que falar com a minha mãe e com a minha namorada. Saber a opinião delas. Posso te dar uma resposta depois?
-Façamos assim, te dou um tempo até o fim do Regional. Temos mais quatro jogos, quase um mês. Mesmo se você voltasse não poderia incluí-la na disputa dessa competição, já que você já começou defendendo a Metropolitana, mas a LIVU tá ai e nós queremos mesmo você conosco. Pensa bem tá?
A LIVU era a Liga de Vôlei Universitário, a competição nacional mais importante dessa categoria.
Isabel garantiu que faria isso.
-Manda um abração para as meninas e sorte no próximo jogo de vocês! - disse a atacante antes de desligar o telefone.
Será? Ela voltara feliz pra casa no inicio do ano, esperando realizar em sua cidade e perto de sua família, seus sonhos. Não podia deixar de pensar que aquela mudança, apesar das crises, fora muito produtiva. Ganhara uma irmã muito fofa e uma namorada linda e apaixonada. O que essas e sua mãe achariam se ela decidisse voltar? Valia à pena permanecer no curso, para satisfazer seu maior desejo que era voltar a jogar? E ainda tinha que pensar em Gabriela! Tinha certeza que a prima não se sentiria tão tranqüila com a proximidade dela e de Roberta. Por mais que ambas jurassem não haver mais nada entre elas! Contentar-se-ia em ver Rachel e amá-la apenas nos fins de semana? Ou a saudade seria torturante, mesmo estando a poucas horas de viagem?
“Ai que vida complicada e confusa!” - pensou Isabel - “Tantas decisões difíceis de tomar!”
Mais cheia de dúvidas do que o de costume, lá foi a garota para mais um expediente na livraria de sua mãe.

***

Guilherme acabara tendo que optar por um almoço na quinta-feira, pois Rachel voltara aos treinos e tinha as tardes e noite ocupadas até o jogo no sábado.
A irmã e Isabel aceitaram prontamente o convite do rapaz, sem si quer desconfiar da intenção dele de acertá-las de vez com Carmem. A surpresa de ambas com a chegada da empresária foi evidente.
-Mãe? - disse a atacante - Que cê tá fazendo aqui?
Carmem sorriu da gentileza do chefe de cozinha de afastar a cadeira para que ela se sentasse. A troca de olhar entre os dois não passou despercebida das garotas.
-Também fui convidada para este almoço, minha filha - disse a empresária sorrindo - Minha presença incomoda vocês?
-Não, Dona Carmem! - falou Rachel sorrindo meio sem jeito - A senhora é sempre bem-vinda. Só ficamos surpresas por que não sabíamos que viria.
Os olhares das três se detiveram em Guilherme que acabara de sentar-se sorrindo.
-Ah, não me olhem assim. Eu só quis dá oportunidade a vocês de conversarem!
-E pra isso armou esse encontro?
-Exatamente - assentiu o chefe - Não quero mais ver as duas sem falar direito com Carmem. Vocês têm que se entender hoje!
Isabel e a namorada ouviram todo o desabafo de sua mãe. O ciúme, a inveja, a falta que sentia da presença e da amizade da filha, o medo de perdê-la para Rachel, e a percepção que finalmente ela tivera do relacionamento de ambas. As vira na livraria e naquele momento tinha plena certeza do sentimento que nutriam uma pela outra e por isso mesmo não queria se colocar contra elas.
Rachel ficou comovida quando Carmem frisou que ela seria sempre mais que bem-vinda na casa dos Andrade como parte da família.
-Eu tive provas suficientes do amor da minha filha por você, Rachel. E se seu objetivo for fazê-la feliz, vai ser sempre amada e adorada na família.
A levantadora sorriu um tanto envergonhada e deixou claro que seu relacionamento com Isabel nunca iria interferir na relação de amizade que ela tinha com mãe.
-Não precisa ter inveja, Dona Carmem! Eu não quero roubar a sua filha de você! - disse a garota ainda sorrindo.
A empresária também sorriu.
-Tudo bem. Mas por favor, não me chame mais de ‘Dona’! Me sinto uma velha!
Risos e a atacante abraçou a mãe, beijando-lhe o rosto repetidas vezes.
-Minha mãezona ciumenta! - disse rindo - Eu amo você, boba! E amo a Rachel também! Mas são amores diferentes! Nenhuma das duas precisa sentir ciúmes.
O restante do almoço foi bem descontraído e animado. As meninas não puderam deixar de notar os papos bem soltos entre Carmem e Guilherme, o que deixou Rachel aos risos e Isabel ressabiada.
-Mas amor - disse a levantadora já à noite, depois de muito treino e trabalho, quando já banhada e deitada na cama da namorada, observava Isabel se vestir - você não precisa ficar assim só por isso né? Eles só estavam conversando numa boa!
-Conversando, Rachel? - disse a garota irônica - Eu vi os olhares do seu irmão pra cima da minha mãe! Ele estava flertando com ela. E desde o começo!
Rachel sorriu dos ciúmes da namorada.
-Alguém está se contradizendo hoje - alfinetou - Pensei que eram amores diferentes, que não havia necessidade de ciúmes!
Isabel encarou-a com desdém.
-Eu estava falando de nós! Seu irmão com a minha mãe está fora de cogitação!
-Bel! Que bobagem, amor! Você mais que ninguém sabe que não somos nós quem decidimos isso! Os dois são livres!
-Amor, ela tem idade pra ser mãe dele! Entende!
-E eu tenho idade pra ser sua irmã, sua prima, mas não sou. Você com esse tipo de preconceito, amor? Nunca pensei!
Isabel sentou-se na ponta da cama, penteando os cabelos.
-Rachel, você já pensou se os dois começam a sair? - indagou a garota - Seu irmão ia ser meu...meu padrasto! E você? Ia virar a minha tia! Eu namorando a minha tia!
A levantadora não conteve o riso.
-Essa é a sua preocupação, Bel? - ela disse se aproximando da namorada ainda sobre a cama, pegando a escova das mãos da atacante e terminando de penteá-la - Eu não tenho nada contra namorar a minha sobrinha querida!
As duas riram.
-Seus pais vão enlouquecer se isso se confirmar. Primeiro eu fico com a única filha, depois minha mãe com o Guilherme, a última esperança deles vai ser o Gustavo! - disse Isabel sorrindo.
-Ah, logo o Gustavo? Sei não viu? Desde que ele deu esse tempo com a Hélen, mal pára em casa.
-É? Pensei que eles tinham voltado já!
-Ih que nada! Ela bem que tentou, mas ele não quis.
-E ela?
-Não sei. Ainda não estamos conversando muito. Só treinando duro. A Marilena não dá folga.
-Imagino. Animadas para sábado? - perguntou Isabel se referindo ao jogo.
-Eu estaria mais se você estivesse ao meu lado - admitiu Rachel sorrindo e descansando a cabeça nas costas da namorada - Promete que vai estar lá amor? Não quero ficar sem você se as coisas não saírem bem.
A atacante fez que sim.
-Vou estar com você o tempo todo anjo! E relaxa, vai dar tudo certo!
O sono foi reconfortante e tranqüilo. Isabel esqueceu nos braços de Rachel suas dúvidas quanto à proposta de Verônica e a levantadora escapou um pouco da responsabilidade e da pressão que estava sofrendo com relação ao jogo. Juntas, as duas estavam realmente em paz.

***

Hélen várias vezes já ouvira o pai lhe fazer aquela proposta. Morar fora do Brasil, conhecer uma cultura nova, mais desenvolvida e cheia de oportunidades, o que mais ela podia querer?
Sempre a mulata denominava n coisas que a faziam querer ficar no país, mesmo o pai tendo casa e estrutura para abrigá-la nos Estados Unidos só estudando. Tinha suas amizades, tinha seu namorado, a faculdade, o time e não queria abandonar tudo e mergulhar em um mundo completamente novo.
Contudo, os acontecimentos acabaram pouco a pouco fazendo a garota ver cada vez mais aquela possibilidade com bons olhos. Perdera a confiança de Rachel, Gustavo a trocara por uma loirinha da Publicidade, ela não tinha mais animação para jogar e a faculdade podia ser trancada quando terminasse o semestre. Parecia que de repente, nada mais a prendia.
Decidida, a oposto comunicou aos pais a notícia na café da manhã daquela sexta-feira. Queria dar um tempo, repensar a vida, conhecer gente nova e rever lugares que só vira quando criança.
A mãe ficou completamente encantada com a novidade.
-Vai ser bom pra você, filha! Seus primos já estão na universidade lá.
-Tem certeza disso, Hélen? - perguntou o pai um tanto cético - Não me venha fazer reservar as passagens e depois desistir!
-Não tem arrependimento, pai! - disse a mulata não muito empolgada - Pode reservar. No fim do semestre eu embarco para os Estados Unidos. Não tenho mais o que fazer aqui.
Os pais de Hélen eram proprietários de uma agência de viagens internacionalmente conhecida, e estas eram rotina na família. A mãe da garota vivia percorrendo Paris, Berlim, Viena, Genebra, Londres e muito lamentava que a filha não a acompanhasse. Parecia finalmente que a garota tinha tomado juízo e esquecido aquele namoro sem futuro com o tal nadador, como também aquela besteira de jogar vôlei.
A atleta, entretanto, estava longe de estar feliz. Queria mesmo era que tudo voltasse a ser como antes, mesmo que ela tivesse que tolerar Isabel ao lado de sua melhor amiga.
Hélen não pode deixar de pensar que a vida é cheia de fases e momentos, os quais devemos aproveitar e com o aprendido, nos preparar para os seguintes. Infelizmente, mesmo a contragosto, o passado não voltaria e ela teria que conviver com a nova vida a que estava se propondo. Será que conseguiria? Ela não sabia ainda, mas sabia que tinha que se arriscar para ver. Só esperava que os riscos daquela tentativa, lhe proporcionassem frutos que valessem à pena, ou seja, que a fizessem feliz. Feliz como ela sabia que sua amiga estava, acima de tudo.

 

 
Capítulo 32: As várias formas de ganhar...


Isabel acordou na manhã do jogo, sendo sacudida pelo irmão. Hugo vestia o abrigo esportivo da Metropolitana e parecia muito animado.
-Oh, Bel! Acorda! - disse ele para a irmã sonolenta - Temos que ir para o jogo!
Preguiçosamente a garota forçou-se a levantar. Sentia saudades do corpo quente de Rachel junto ao seu. A namorada preferira dormir na própria cama na véspera do jogo.
-Deixar a cama com você dormindo nela é muito mais difícil! - foi o que ela disse sorrindo quando a atacante perguntou o porquê daquilo - Tenho que me concentrar Bel! E perto de você é bem mais difícil.
Um tanto sem entender a preferência na namorada, Isabel nada disse e as duas dormiram separadas. Combinaram de se encontrar no ginásio, um pouco antes da partida.
Meia hora depois de ser acordada por Hugo, Isabel finalmente saia de casa acompanhada do irmão e do primo. Ainda passariam na casa de Rebeca, para apanhá-la e a Duda. Todos queriam ver aquele jogo decisivo para a universidade.
As filas para entrada no ginásio da Federal estavam imensas, mas graças à presença de Isabel, com o crachá de jogadora, eles conseguiram burlar a segurança e entraram sem maiores problemas. Todos achavam que era mais uma atleta da Metropolitana chegando com a família.
Conseguiram um bom lugar e depois de acomodados e cadeiras garantidas, Isabel e o irmão foram em busca das respectivas namoradas.
Hugo encontrou Cacau na entrada nos vestiários e por lá mesmo os dois ficaram conversando. Isabel só pode falar com Rachel depois de a levantadora ouvir todas as instruções da técnica.
Sentiu-a nervosa quando a abraçou.
-Amor, você tá tremendo! - disse - Tudo bem?
A levantadora fez que sim.
-Só muita pressão. Todos esperam muito de mim hoje - disse a garota apontando para um canto da arquibancada, onde alguns homens conversavam - São olheiros de grandes times do Sul. Vieram especialmente para assistir a esse jogo.
-Eu sei, Kel. Mas não se deixa levar por isso, ta? Concentre-se na partida!
Rachel abraçou Isabel com força.
-Obrigada por ter vindo, Bel! É muito importante você aqui comigo!
-Eu sempre vou te apoiar e torcer por você, meu anjo! Pra mim você já ganhou!
Sorrisos e o trocar de um beijo foi inevitável, mesmo ali, às vistas de tantas pessoas.
-Eu te amo! - disse Isabel antes de ouvir Marilena convocar toda a equipe. A partida ia finalmente começar - Boa sorte!
A levantadora lhe atirou outro beijo e foi se reunir com as companheiras.
A torcida da Federal, com suas camisetas vermelhas, dominava a maior parte da arquibancada. Faziam festa o tempo inteiro, gritando, cantando, vaiando. Valia tudo para desconcentrar as jogadoras da equipe da Metropolitana.
Em menor número, mas confiante, os torcedores do time de Rachel, balançavam suas camisas e bandeiras azuis, gritando o nome das jogadoras, as incentivando a cada lance.
Os sets foram todos muito equilibrados. Disputados ponto a ponto, lance a lance. Parecia que os dois times estavam dando a vida naquela partida, o que proporcionou aos expectadores um grande espetáculo de vôlei.
Os locutores do campeonato estavam animadíssimos com o jogo e a todo instante mudavam de opinião sobre qual dos times estava melhor em quadra e tinha chances de vencer a partida.
Marilena gritava com a sua equipe, apontava, se irritava, torcia, vibrava, tudo com pulos e trejeitos nervosos. Ela estava em sintonia com o que ocorria dentro da quadra e procurava apoiar suas jogadoras.
O primeiro set foi da Metropolitana. Venceu, claro que com muito equilíbrio, mas foi a derrota de um tabu, já que a Federal tinha vencido todas as partidas por 3 x 0. Era o primeiro set que a equipe da casa perdia.
No segundo as meninas meio que relaxaram e com a entrada da Márcia Thé, uma jogadora de meio de rede, o bloqueio da Federal melhorou 100%. As atacantes da Metropolitana suavam para furá-lo ou passar por ele. Resultado? Vitória da equipe anfitriã.
Nos dois sets seguintes a mesma coisa aconteceu. A Metropolitana ganhou o terceiro e a Federal o quarto, o que levava o jogo para o ‘tai-break’ e decisivo set.
Se para todos, a tensão no ginásio era evidente, para Isabel era torturante assistir um jogo da arquibancada. Ela sofria com cada erro de sua ex-equipe, apontava a direção que iriam os ataques da Federal e gritava quando as ex-companheiras perdiam pontos bobos.
Vez ou outra, seu olhar e o de Rachel se cruzaram durante a partida e ela percebeu uma sombra de nervosismo na namorada. Era evidente para a atacante que a garota estava dando o máximo de si, mas que o time nem sempre correspondia às expectativas. Reca, que substituíra Isabel, estava longe de ter o mesmo nível da ex-atleta e Hélen estava um tanto apática.
Marilena também já tinha notado o comportamento distraído da mulata e várias vezes durante a partida a substituíra por Júlia.
O quinto set foi um espetáculo para ser esquecido da memória da equipe da Metropolitana. Enquanto o time adversário estava empolgado e embalado pela vitória do set anterior, o time de Marilena parecia ter desanimado completamente.
A defesa perdia bolas bobas, o bloqueio não conseguia conter os ataques e colocar a bola no chão da quadra adversária, era quase impossível, tamanha era a concentração da equipe da Federal.
A derrota de sua ex-equipe, não abalou Isabel. Ela achara mesmo que as meninas já tinham conseguido demais vencendo dois sets. Sua preocupação era consolar Rachel e impedir que ela se sentisse culpada pelo que ocorrera.
Ansiosa pra reencontra a namorada, a garota saiu das arquibancadas e foi procurá-la nos vestiários.

***
Rachel não queria mais nada naquele dia. O que mais podia pedir do que ficar ali, naquela cama grande, abraçadinha com Isabel? Estava perfeito demais!
A sensação de culpa pela derrota aos poucos ia passando, ela sabia. Tanto nela, como nas companheiras de time. Perder era ruim, mas fazia parte do esporte. Elas sabiam disso muito bem.
O banho no vestiário fora revigorante. E depois de cumprimentar todas as meninas, e reconfortá-las, como previa seu papel de capitã, ela pode simplesmente relaxar no abraço carinhoso da namorada.
Não falaram nada sobre o jogo durante o almoço no restaurante. Mesmo porque ela e Cacau não queriam tocar no assunto e todos respeitaram. De forma que, apesar de tudo, o clima foi bem descontraído.
Depois Ed, Rebeca e Duda foram para a casa da secretária. Hugo e Cacau para a casa de Isabel e as duas, a pedido de Rachel, foram para a casa da levantadora.
Era a primeira vez que Isabel voltava à casa dos Alves depois do jantar em que as duas tinham revelado seu relacionamento às suas famílias, e a recepção foi bem simpática. Talvez por que os pais de Rachel soubessem do resultado do jogo e não quisessem criar mais problemas pra filha.
Gustavo ainda apareceu para dar um olá e abraçar a irmã, mas depois as duas ficaram sozinhas no quarto de Rachel.
Passaram horas ali na cama, a levantadora sentada entre as pernas de Isabel, de costas para ela, descansando seu corpo sobre o da namorada e deixando-se abraçar, acalentar. Nada de palavras, nada de cobranças ou aquelas frases clichês que não consolam ninguém. Só ficaram juntas.
-Como você me agüenta assim, Bel? - perguntou a levantadora depois de muito tempo.
-Assim como, anjo?
-Assim triste e desanimada.
Isabel sorriu.
-Eu te amo. Faz partes das minhas funções!
Rachel não pode deixar de sorrir.
-Você é uma graça. Acho que não teria outra pessoa com que eu gostaria de estar agora. Só pensava em ver você, depois que sai daquela quadra.
-Eu sei. Só pensei em ir logo te ver quando tudo terminou.
-Você torceu por nós?
-Por elas não, por você.
-Mas achou o resultado justo né?
-Você não, anjo?
A levantadora fez que sim.
-Elas estavam jogando melhor mesmo - disse triste - Bom, vamos esperar a LIVU agora!
Aquela menção a competição lembrou Isabel da proposta de Verônica.
-Minha ex-técnica me ligou - disse ela.
-Marilena?
Fez que não.
-Verônica. Treinadora da Estadual.
-Humm..o que ela queria com você?
-Adivinha!
-Te levar de volta?
-Uhum!
-E o que você disse?
-Nada. Ainda tinha que falar com você, com a minha mãe.
-Então você se interessa?
Isabel explicou a proposta da Estadual a namorada.
-É mesmo tentadora, Bel! - admitiu Rachel - Falou com a sua mãe?
-Ainda não. Minha preocupação maior era você.
-Por que, amor? Acha que eu ia ficar contra você ir?
-Não contra eu ir. Mas sabe que vamos ficar um tanto distantes!
-Algumas horas de viagem!
-Você agüentaria me ver só nos fins de semana?
-Pra ver você jogar de novo? - perguntou Rachel - Com certeza. Você fica um tesão jogando! Ai, quero nem pensar!
As duas riram.
-Como alguém fica um tesão jogando vôlei, mocinha?
Rachel sorriu.
-Ah, eu não sei explicar. Mas você fica. Eu não consigo não pensar ‘Todos olhando pra ela, mas ela é só minha!”
Isabel riu.
-Ah, que namorada mais possessiva.
-Muito possessiva. Você é só minha e pronto!
O beijo foi natural.
-Sim, senhora! Todinha sua!
-Ah, por falar nisso, vem cá vem! - disse Rachel se deitando e puxando o corpo de Isabel pra cima do seu.
-Hummm...pensei que você tava desanimada para essas coisas, anjo! - disse a atacante se encaixando no corpo da namorada - Mudou de idéia é?
-Uhum! - Rachel fez que sim com a cabeça e beijando Isabel na boca - Acabei de lembrar que você também fica um tesão quando fazemos amor!
Risos, muitos beijos e uma tarde intensa de carinhos.

***
Marilena foi pessoalmente cumprimentar a ex-namorada e treinadora da Federal, Letícia. Sabia que queria tê-la vencido, mas admitir que perdera era algo que ela aprendera há muito tempo dentro das quadras.
Era triste e muito difícil colocar o orgulho de lado, mas ela sabia que tinha que fazer isso. Só assim superaria e poderia se preparar para novos campeonatos. Sem rancor e admitindo os próprios erros.
Para sua surpresa, Letícia, sempre tão orgulhosa e muito dona de si, foi agradavelmente simpática naquela manhã de sábado.
-Eu soube do que aconteceu com as meninas, Mari! - disse ela sorrindo e esquecendo a formalidade - Isabel e Rachel. Achei muito digno da sua parte não interferir em nada e deixar que se resolvessem entre elas.
Marilena sorriu. O tratamento carinhoso por parte da ex-namorada valia mais que qualquer campeonato. Percebeu que por mais que procurasse negar, ainda nutria sentimentos por Letícia.
-É. Mas isso acabou abalando o time e hoje nós vimos o resultado - disse ela procurando não parecer tão abalada - Mas ainda temos a LIVU!
A técnica da Federal fez que sim.
-Acho que vamos ter um grande campeonato esse ano - comentou enquanto se dirigiam para o vestiário - Muitas universidades com bons times lutando por uma vaga.
-É, mas você tem uma boa chance agora de garantir a sua. Se ganhar o Regional, já está dentro! - falou Marilena.
-Não me iludo que será fácil assim ganhar o Regional. Acabei de saber a pouco que a Estadual se classificou para a final. E ela ganhou os dois jogos contra a Católica. O time é muito entrosado.
-É sim. Isabel era jogadora de lá. As meninas jogam juntas há no mínimo dois anos.
-Viu? Tenho que conversar direito com as meninas. Não deixar o espírito do ‘já ganhou’ tomar de conta do time.
Marilena sorriu e parou na porta do vestiário reservado a Metropolitana.
-Você é uma ótima técnica. Tenho certeza que vai conseguir fazer isso! - disse - Espero mesmo que dê tudo certo pra vocês!
Quando já ia entrando, Letícia a deteve com um chamado.
-Mari!
-Sim? - disse ela se voltando.
-Sabe que eu ainda sinto a sua falta!? - falou timidamente.
Marilena sentiu o coração explodir de felicidade, mas tinha que se manter racional. Sabia que aquilo podia não significar nada.
-Eu também sinto a sua, Letícia - admitiu encarando-a - Acho que nunca deixei de sentir.
Foi a vez da técnica da Federal sorrir.
-Acha que podemos sair...qualquer dia desses? - perguntou ela ansiosa pela resposta.
-Eu gostaria muito. Mas você sabe que eu não quero nada passageiro com você. Já passamos da fase dos namoricos e relacionamentos escondidos - explicou Marilena - Se quiser sair como uma amiga, nós chamamos as meninas e marcamos.
Letícia pareceu desapontada.
-Você ainda não me perdoou né?
Marilena fez que sim.
-Demorei a entender, mas já aceitei a sua decisão. Você preferiu ficar só com o vôlei, sem nos expor mantendo um romance comigo. Foi difícil, mas não tenho mágoas de você, Letícia.
-Eu não deixei de amar você - disse a outra, as lágrimas inundando os olhos - Só não achei que poderia lidar bem com as duas coisas, com a carreira e o nosso relacionamento. Sabia que íamos sofrer muito preconceito.
A técnica da Metropolitana não suportava ver a ex-namorada prestes a chorar. Foi preciso muita força de vontade para não abraçá-la ali mesmo.
-E o que a fez mudar de idéia, ou melhor, voltar a pensar sobre o assunto?
-Todo esse caso das suas jogadoras. Você sabe que as pessoas estão comentando, os times, as comissões técnicas. E todos admiraram a sua posição e da universidade de não condená-las. A sua eu sabia bem por que.
-Eu não podia ser hipócrita e condenar Isabel e Rachel por se amarem. Elas sabem o que terão de enfrentar para ficarem juntas, mas acredito que terão mais sorte nisso do que nós duas tivemos.
Letícia secou uma lágrima que teimava em querer cair sobre seu rosto.
-Não haveria uma segunda chance para nós também? - perguntou ela.
Marilena não conteve o sorriso. Por anos ela esperara ouvir aquilo.
-Quem sabe né? - disse - Vou chamar as meninas, juntamos a turma e saímos todas! Pode ser?
Letícia preferia um programa a duas, mas aquilo já era alguma coisa.
-Pode sim! - disse sorrindo.
As duas se despediram e cada uma saiu um tanto mais feliz do que antes. Não havia nenhuma garantia que tornassem a se envolver e a ficar juntas, mas aquela reaproximação já era alguma coisa, para quem passara tanto tempo afastado.
Marilena não tirou o sorriso do rosto o resto do dia. Mesmo diante das críticas durante a entrevista após o jogo. O que lhe importava que os jornalistas falassem mal do seu time ou de sua forma de treiná-lo? Ela sabia que fazia o melhor possível, e suas jogadoras também.
Quando perguntada sobre o porquê daquele sorriso, mesmo após a eliminação do Regional a técnica não pode conter o riso.
-Ah, nada demais. Vocês perceberam como é espantosa a veracidade dos ditados populares? - ela perguntou deixando todos sem entender a que se referia.
Sorte nossa de sabermos, que ela se referia aquele que diz assim ‘azar no jogo, sorte no amor’. Quem sabe né? O tempo com certeza lhe diria.

 


Capítulo 33: Saudades e esperanças.....

 

Isabel finalmente decidira aceitar a proposta de Verônica. Se Rachel não se opunha a ela, então estava tudo perfeito. A única coisa que a preocupava era a opinião da mãe, já que a empresária tinha realmente ficado feliz com a idéia de a filha cursar administração e ajudá-la na livraria.
Contudo, a atacante teve uma surpresa e tanto ao falar com Carmem. Ela parece tão feliz e animada, alegre, sorridente, como se estivesse em estado de graça. Não reclamou, não se opôs, deixando nas mãos de Isabel a decisão.
A jogadora não gostou muito daquele estado de alegria permanente da mãe. Sabia que ela estava saindo constantemente nos últimos dias e só voltando tarde da noite. Tinha certeza que Carmem mal a escutara, de tão atenta que olhava para o telefone, esperando que este tocasse. E Isabel sabia que só havia uma explicação para isso: Guilherme.
Ainda comentou com Rachel o ocorrido, mas a namorada jurou não saber de nada.
-Ah Bel, se eles tiverem saindo mesmo, logo a gente vai saber! Desencana! - disse a levantadora finalizando o papo.
Isabel achava difícil conseguir ‘desencanar’ de um assunto que estava relacionado à sua mãe. Preocupava-se com ela. Tinha medo que se envolvesse demais e que para Guilherme fosse apenas mais um ‘fica’. Sabia que ela sairia magoada se algo assim acontecesse.
De novo falara com a namorada sobre seus temores, e Rachel foi taxativa:
-Amor, sua mãe é adulta, vacinada! Se ela conseguiu manter dois anos de casamento de fachada com seu pai, acha que vai se intimidar ou não saber lidar com o Guilherme? Esquece disso, Bel. Deixa os dois se entenderem ou não. Você não tem que cuidar de todo mundo, tá?
Rachel sempre dizia aquilo. Que Isabel tinha mania de cuidados. Mania de se preocupar em demasia com os outros. E ela sempre achara que era impressão da namorada, mas já tinha admitido para se mesma que se preocupava com as pessoas que gostava.
Felizmente Hugo e Cacau continuavam numa boa, trabalhando juntos na academia onde Ed malhava. O grude era tanto, que seu irmão até já lhe falara de casamento. Não logo, já que tinha que terminar a faculdade. Mas em breve.
Ed e Rebeca tinha realmente decidido assumir o romance. E aproveitando a carona de Isabel, que tinha que tratar da papelada de transferência para a Estadual, os dois tinham ido com Duda, conversar sério com Rafael e Vera, os pais do rapaz.
A empatia de Duda com Vera fora tão grande, que a tia de Isabel estava se sentindo a mais nova avó do pedaço, mimando e fazendo as vontades da menina. No mais, nenhum problema. Os tios só recomendaram juízo aos dois pombinhos.
O reencontro com as amigas de time fora muito animado. Todas felizes de poder contar novamente com a presença de Isabel. Não houve aqueles olhares enviesados ou críticas a opção da garota, como Cíntia, a oposto e capitã da equipe mesma disse a atacante.
-Nós queremos a nossa amiga e atleta de volta, Bel! Sua vida fora das quadras, só diz respeito a você!
Isabel sorriu agradecida e não se surpreendeu quando começara as gozações. Aquele time era cheio de palhaças.
-Ah, mas essa menina tinha logo que agarrar a capitã da Metropolitana? - disse Marta rindo - Que pegadora você anda nos saindo, Bel!
Mirla, a líbero, que já tinha tido um pequeno romance com Isabel também entrou na onda.
-Ela só pega a mais bonita logo! A loirinha de olhos azuis! Ta vendo? Acho que ela nos deixou por que a gente não era tão linda assim!
Risos. E Isabel teve de convencer as companheiras que todas eram muito atraentes, mas ela estava realmente apaixonada. Um ‘aaaahhhh’ cheio de gozação e lamento foi geral por parte das meninas.
-Você acabou com as minhas expectativas de agarrar você, Bel! - disse Paulinha sorrindo. Ela era a única casada do time. - Logo agora que o Pablo tá louco pra fazer um ménage!
Mais risos.
-Meu Deus! - falou Isabel sorrindo também - O que fizeram com as minhas companheiras de time, heterossexuais e bem resolvidas?
Cíntia riu.
-Nós éramos tão bem resolvidas que você nos colocou todas em dúvida, menina. Olha que pra não pagar nada e ganhar um daqueles dormitórios maravilhosos, como você, eu beijo da Verônica a Dona Anália.
Dona Anália era zeladora e a funcionária mais velha do campus. Já tinha se aposentado, mas sempre estava pela universidade. Adorava assistir o treino de vôlei das meninas. Era um símbolo de dedicação e amor ao trabalho.
A gargalhada foi geral e só parou com a chegada da técnica.
-Aposto que estão todas zoando a Isabel, acertei? - disse ela descontraída.
-Que anda técnica, estamos todas pedindo uma chance a ela, mas aquela loira enfeitiçou mesmo a menina! - explicou Denise.
-Tá vendo, Isabel? - disse Verônica se voltando para a atacante - Graças a você, eu vou ter o time mais sexualmente instável da LIVU!
Risos.
-Tudo certo, técnica? - perguntou Isabel quando conseguiu ficar séria novamente. Sempre olhava para uma das amigas que ainda riam e caia na gargalhada.
-Tudo certo - disse a outra entregando os documentos de Isabel - Seu dormitório já está disponível e pode se mudar quando quiser.
-Perfeito. É o tempo de organizar minhas coisas e eu venho pra cá.
-Pois se apresse, viu? Ainda temos a final do Regional, mas depois dela, começam os treinos para a LIVU.
-Sem problemas! Estarei aqui antes disso.
Verônica se afastou, preocupada em resolver outros assuntos, mas no meio do caminho voltou-se para o grupo de jogadoras.
-Cíntia!
-Diga técnica! - falou a capitã tentando manter a seriedade.
-Só pra você saber, você não faz meu tipo! - disse rindo.
Isabel não conteve mesmo o riso e caiu na gargalhada com as companheiras. Era mais que bom estar de volta. Era perfeito.

***

Rachel não conseguia não sentir saudades de Isabel. Elas se falavam todos os dias, se viam nos fins de semana, mas não era a mesma coisa de antes. Tinha momentos que daria tudo simplesmente para estar com ela. Só ficar perto, sem segundas intenções.
A vida da levantadora andava cheia. Tinha a faculdade, os treinos e com a saída da namorada, Carmem a convidara para assumir o lugar da filha. Era bem mais trabalhoso e cansativo vender e lidar com as pessoas do que com as palavras, mas ela era mais bem remunerada e conhecia pouco a pouco os funcionários e o cotidiano da Gênius.
Se antes a impressão que ficara era que ela conseguira o emprego porque era namorada da filha da patroa, aquilo estava mudando à medida que Rachel comprovava a sua competência.
No time era tudo muito diferente. Parecia que nada seria mais o mesmo depois da passagem de Isabel e toda aquela confusão. As meninas a tratavam bem, mas ela própria não queria tanto contato como antes.
Lamentou profundamente a viagem de Hélen, quando a amiga lhe contou. Não perdera o carinho que sentia por ela, mas talvez boa parte da confiança. Ainda andavam juntas, mas sem aquele vínculo afetivo de antes do seu envolvimento com Isabel.
Assim, quando menos percebeu, Rachel se sentiu sozinha. Mas não aquele tipo de solidão que qualquer presença cura, mas daquelas que só com a pessoa certa, passa. E a sua pessoa certa era Isabel. Queria estar, acordar, dormir, fazer amor, tudo com ela.
A vitória da equipe da Federal sobre a Estadual nem importou muito para Rachel. Lamentava que o novo time da namorada tivesse perdido, mas ficara feliz ao ver Marilena ao lado de Letícia, treinadora do time vencedor. Ao que parecia as duas estavam se entendendo e aquilo lhe deixava muito feliz. A técnica merecia.
Toda aquela solidão contida e a vontade de ficar perto de Isabel estavam incomodando bastante Rachel. Ela queria dar um jeito, mas não sabia como fazer.
A idéia para solução daquele problema partiu da pessoa que ela menos esperava: Hélen. Numa manhã em que ela estava particularmente triste, a mulata aconselhou-a.
-Por que você não vai atrás dela, Kel?
-Atrás de quem, Hélen? - quis saber a levantadora distraída.
-Da Isabel ué. Fica ai toda jururu pelos cantos. Devia ir atrás dela!
-Era o que eu mais queria, tornar a ficar junto, mas como? Eu moro aqui e ela lá! Nunca pensei que ia sentir tanta saudade!
Hélen sorriu. Não gostava mesmo de Isabel, mas sabia que a amiga estava mesmo apaixonada e andava entristecida desde que a namorada partira.
A idéia de usar a influência de seu pai, um dos formandos e colaboradores da Estadual, para ajudar Rachel foi imediata ao perceber o estado de desânimo em que esta se encontrava.
Ela fizera o pai ligar para os amigos que tinha na universidade vizinha e depois de muita conversa e dias de espera, eles conseguiram agendar uma conversa com o responsável pelo departamento de esportes e a treinadora da equipe de vôlei.
A própria Hélen compareceu e explicou a situação. Pedindo uma oportunidade para Rachel poder jogar no time da Estadual.
Verônica, a técnica, fora clara e objetiva.
-O que eu posso fazer pela sua amiga é marcar um teste com ela, o que já é bem irregular, visto que todo semestre abrimos vagas para a seleção de novas jogadoras. De certa forma estaríamos privilegiando-a entende?
-Ela passando nesse teste, poderia ingressar na equipe de vocês? Mesmo que provisoriamente?
O diretor esportivo e a técnica trocaram um olhar. Se fosse outra atleta qualquer não concordariam, mas Rachel Alves, quem não queria em seu time?
-Pode. Mas teria que se submeter novamente aos testes de seleção do próximo semestre - explicou o diretor.
Hélen sorriu muito feliz. Não tinha dúvidas que Rachel passaria nos dois testes. E ao menos poderia ficar logo perto de Isabel, o que ela sabia que a amiga tanto queria.
Rachel ouviu aquilo tudo de Hélen naquela mesma manha fria e triste. À medida que a amiga falava, não pode mais conter o sorriso e a alegria que a invadia.
-Hélen! Meu Deus, por que você fez isso?! - perguntou abraçando agradecida a amiga.
A mulata a olhou com um sorriso.
-Porque eu sei que você não está feliz longe daquela novata metida! - disse sorrindo. Tirou um papel da bolsa e entregou a Rachel - Esse é o telefone da Verônica. Ela está esperando você ligar para marcar o tal teste.
A levantadora olhou aquele simples pedaço de papel como se fosse um tesouro e guardou-o cuidadosamente.
-Eu não sei mesmo como agradecer você, Hélen! - disse ela encarando a amiga.
A outra sorriu.
-Não tem que me agradecer. Eu fui uma idiota com você. Bom, com vocês né? Peça desculpas a Isabel por mim. Acho que ela não tem boas lembranças do tempo que convivemos juntas.
Rachel sorriu.
-Não se preocupe. Ela não tem raiva de você! Quando você vai embora?
-Assim que terminar o semestre. Pouco mais de duas semanas.
-Não tem como voltar atrás na sua decisão?
Hélen fez que não.
-Tô precisando mesmo viajar. Conhecer gente nova. Quem sabe eu volto tão apaixonada quanto você?
As duras riram.
-Tenho certeza que vai voltar sim!
Rachel chegou em casa exultante naquele dia. Tinha uma chance de voltar a ficar pertinho de Isabel e faria tudo que fosse possível pra isso acontecer.
Primeiro pensou em ligar correndo pra namorada e contar a novidade. Mas achou melhor não. Não queria que ela criasse expectativas antes de ter certeza que daria tudo certo. O melhor era fazer surpresa.
Sozinha na cama, à noite, a garota fazia mil planos pra quando estivesse junto de Isabel. Queria viver tanta coisa com ela. Experimentar de tudo que uma vida de casal, que um namoro podia lhe oferecer. Mas só a perspectiva, aquele fio de esperança de voltar a tê-la ao seu lado, foi capaz de fazer Rachel adormecer tranqüila, mesmo sozinha naquela cama enorme. Ter Isabel juntinho dela de novo, era uma questão de tempo.


Capítulo 34: Revanche, mentiras e desconfianças...

 

Mesmo estando distante de casa, Isabel não se esquecera de sua vingança com relação à Malu. A preparadora física precisava pagar pelo que tinha feito com elas, independente que as duas já estivessem bem e Rachel até voltado pro time. A atacante não esquecia as coisas tão fácil assim.
O responsável por colocar isso em prática, não pode ser outro que não Ed. Como membro do DCE, ele tinha acesso total a reunião semestral de professores, o que facilitava muito as coisas.
O rapaz sabia que em toda reunião semestral era passado um filme. Durante o decorrer do semestre os alunos da comunicação e pedagogia trabalhavam na execução deste, com a missão de escolher e filmar o professor modelo do período.
Eles apresentavam depoimentos dos alunos, dos colegas de trabalho, dos superiores e às vezes até da família. Era uma forma que a universidade encontrara de homenagear seus mestres e que havia sido muito bem recebida por todos.
O tal filme era passado para os outros membros do corpo docente assistir e o professor escolhido recebia uma medalha da universidade. Tudo como mandava o protocolo.
Ed então, para colocar a vingança de sua prima em prática, precisou apenas trocar o tal filme. Ao invés de rodar a homenagem, projetar na tela o que tinha feito de Malu.
Apesar de todas as dificuldades possíveis, o garoto conseguiu seu intento. Enquanto o rapaz da projeção saiu correndo para o banheiro, a fim de limpar o refrigerante que ele ‘acidentalmente’ derramara em sua blusa, Ed, trocou os filmes e desceu até o auditório, aguardando o iniciar do espetáculo.
A princípio ninguém entendeu o que era aquilo na tela. Parecia que o filme tinha se iniciado do meio, sem título nem nada. Mas depois que os gemidos de prazer e a cara da preparadora física de vôlei apareceram visíveis na tela, o rebuliço foi geral.
As pessoas se entreolhavam chocadas, inclusive Abreu, o tio de Malu e assistente técnico de Marilena. A própria vítima, aos poucos fuzilada pelos olhares de reprovação, ficou lívida ao se reconhecer na tela.
Enquanto a comissão de professores exigia a paralisação da projeção, a turma de alunos presentes sorria e zoava com aquilo. Estavam adorando o desempenho e quando localizaram Malu no auditório, a gozação com ela foi ainda maior.
Frases como, ‘Ai que danado de cara sortudo!’ ou ‘Rebola assim pra mim também, Malu!’, foram ouvidas várias vezes. Fora os ‘elogios’ de ‘gostosa’, ‘safada’ e etc.
Ed ria a valer da confusão que aquilo provocara e quando o carinha da projeção saiu correndo da sala, procurando alguém que lhe dissesse o que fazer, ele se aproximou e puxou a nota da carteira.
-20 pratas, pra você trancar a porta da sala, sumir daqui e deixar o filminho terminar. Topa?
O rapaz sorriu um tanto desconfiado.
-O que você quer com isso?
Ed riu.
-Assistir tudo ué. Cê já viu que dona mais gostosa?!
Os dois riram e o rapaz pegou a nota. Em seguida trancou a porta e saiu dali.
-Se alguém perguntar...? - indagou no meio do caminho.
-A gente nem se conhece... Fique tranqüilo! - garantiu Ed.
Sem mais papo ele tratou de ir embora.
Quase que imediatamente depois disso, vários membros da comissão da universidade e da organização do evento correram até a sala de projeção. Ao a encontrarem trancada ficaram muito irritados. Como iriam parar aquela pouca vergonha sem a chave da sala?
-Ei, rapaz! - falou um professor que Ed nunca tinha visto antes - Por acaso você viu o rapaz daqui?
Com a cara mais ingênua e inocente do mundo Ed fez que não.
-Já tava trancada quando eu cheguei, professor. Capaz de ele ter ido ao banheiro.
O professor esbravejou com raiva e avisou aos companheiros que não tinha como parar o filme.
No auditório, Malu, depois de muito esforço e com a ajuda de Marilena e Abreu, conseguiu escapar das gozações e dos olhares inquisidores. Ela levada chorando dali, não sem antes passar pela multidão de gente que havia se acumulado na porta do auditório, depois de serem avisados do que ocorria por amigos.
Depois de curtir mais um pouco de toda aquela confusão e ainda sorrindo, Ed pegou o celular e ligou para a prima.
-Bel?
-Sim! - disse esta ansiosa na outra linha - E ai, como foi?
Ele riu.
-Deu certo. Você tinha que ver a cara dela e a bagunça que tá isso aqui.
Foi a vez de Isabel rir.
-Alguém viu você?
-Não. Só o carinha da projeção, mas ele não vai falar nada. Até acabou ajudando a gente.
-Como ela saiu daí?
-A Malu?Ah só conseguiu sair agora pouco de tanto que zoavam com ela. Um xinga-xinga geral! Foi a sua técnica que tirou ela daqui. Estava humilhada e chorando muito. Isso vai ficar marcado pra sempre na história da Metropolitana.
Isabel sorriu de novo.
-Melhor assim. Ela vai sentir um terço do que eu e a Rachel sentimos quando ela armou para o time nos descobrir.
Ed sorriu.
-E eu que sempre te achei um doce de pessoa, prima. Você anda muito má ultimamente.
Isabel fez que não.
-Mas eu sou um doce de pessoa. Desde que não mexam comigo ou com quem eu gosto.
-É to percebendo. Espero morrer seu amigo, agora que sei do que você é capaz quando tá com raiva.
Risos.
-Mas me diz - continuou Ed - Como tá tudo por ai?
-Bem. Só muita saudade da Rachel.
-Notícias da minha família?
-Tudo bem. Gaby passou na primeira fase do vestibular. Tá bitolando aqui pra segunda.
Ed riu. Isso era bem típico de sua irmã.
-E você e Rebeca?
-Tudo bem também - revelou o rapaz - Seu pai deu as caras lá uma noite dessas. Rolou um clima tenso, mas nada muito sério.
-O que ele achou? Que ela ia ficar esperando por ele a vida toda?
Ed fez que não sabia.
-Acho que não gostou de saber que ela está com um cara mais novo. O engraçado é que ele trocou a tia Carmem por uma mulher assim né? Agora vem querer reclamar. Essa vida dá voltas!
Isabel concordou. Se não tinha muito contato com o pai antes, desde que soubera de tudo, é que não tinham mesmo. E nem ela se importava muito com aquilo. Sabia que Paulo e Hugo sempre saíam juntos. Coisa de pai e filho. Só esperava que o irmão não seguisse o mau exemplo. Cacau não seria assim tão paciente e discreta como sua mãe fora.
-Eu não sei como te agradecer pelo que fez por mim hoje, Ed! - disse Isabel.
O primo sorriu.
-Não agradeça ainda. Deixa eu terminar a faculdade e convencer a Rebeca de casar, que você me agradece sendo madrinha de casamento.
Isabel riu. Ed casado e pai de família era uma coisa hilária de se pensar.
-Tudo bem. Eu aceito.
-Bom, deixa eu ir. Ainda vou pegar a Duda no colégio.
-Manda beijo pra ela. To com saudades.
-Mando sim. Outros beijos pra você, Bel!
-Pra você também. E muito obrigada.
O rapaz riu.
-Ah que nada, adorei conhecer esse lado malvado da minha prima querida.
Os dois riram.
-Até mais.
-Tchau, tchau!
Depois de desligar o telefone Isabel não pode evitar sentir aquela sensação de dever cumprido. Daria tudo para ver a cara de Malu, mas talvez fosse bom mesmo estar longe. Pelo menos ninguém a ligaria com o escândalo. Ed fora mesmo genial.
Horas depois, quando já estava em seu dormitório, a garota recebeu outro telefonema. Dessa vez era Rachel.
-Amor, me diz que você não fez isso - a garota disse antes de qualquer coisa.
-Isso o que, Rachel? - falou Isabel se fazendo de desentendida.
-O filme da Malu com o seu primo. Foi passado hoje em plena reunião de professores, sabia?
-Sério? - disse a atacante se fazendo de surpresa - Rachel eu estou bem longe daí pra ter alguma coisa a ver com isso, não acha?
-Eu espero mesmo que sim, Isabel. Eu não apoio nada disso ai, viu? Acho uma safadeza.
Isabel sorriu. Fizera bem em não dizer nada a ela. Rachel às vezes era ética demais.
-Eu também acho, amor. Mas me diz, cê ligou pra mim só pra brigar comigo por algo que eu nem fiz?
Rachel sorriu da voz carente da namorada.
-Ah, não. Liguei pra te dar boa noite. Tava com saudades.
-Humm..eu também to com saudades de você. Ainda bem que amanhã já é quinta-feira, né? Sexta a gente se ver!
-Era justamente sobre isso que eu queria falar com você.
-Sobre sexta?
-Uhum! Só posso ir à tarde.
-Sério? Por quê?
-Umas coisas pra fazer na livraria.
-Ah, amor. Não tem como pedir pro Felipe fazer?
-Não, Bel. Eu faço e depois vou te ver. É só uma manhã. A gente já agüentou a semana toda, mais algumas horas não matam né?
-Ah você que acha. Eu já vou estar em plena crise de abstinência!
Rachel riu. Como a namorada era exagerada.
-Não fica não. Termino tudo aqui e vou correndo te ver.
-Fazer o que né? - conformou-se Isabel - Eu me conformo em esperar até a tarde pra te ver.
-Boba, quem olha pensa que é uma eternidade!
-Qualquer tempo longe de você é uma eternidade pra mim, amor!
Rachel não soube o que dizer. Queria contar do teste de sexta-feira de manhã pra Isabel. Mas achava que a surpresa seria muito melhor. Queria ver a expressão dela quando soubesse que poderiam ficar juntas!
-Eu te amo, viu? - disse - Não fica tristinha.
-Tudo bem, amor. Fico não. Também te amo.
-Se cuida e fica bem. Deixa eu ir dormir, que acordo cedo amanhã.
-Ai nem me lembra, eu também. At

é sexta, amor!
-Até, Bel. Beijo!
-Outro!
Quando desligaram os telefones cada uma ficou com a mesma impressão com relação à outra. Havia mais coisa ali. Nem tudo fora dito claramente. Mas o que? O que poderia ser?

***

A sexta-feira amanheceu um tanto sem graça para Isabel. Sempre acordava cedinho com a chegada de Rachel, como a namorada só chegaria à tarde, ela ficou na cama além do normal.
Levantou-se horas depois com a campainha tocando. Quem poderia ser àquela hora? Não estava esperando ninguém! Talvez Rachel tivesse mudado de idéia.
Animada com essa perspectiva, a garota correu pra atender a porta. Não era Rachel, era Gabriela. E com vários livros debaixo do braço.
-Nossa! Pela sua cara a minha visita é completamente inoportuna! - disse a garota sorrindo.
-Ah que nada, Gaby. Pensei que era a Rachel.
-Eu sei. Pensei que ela estaria aqui com você. Mas quando dei de cara com ela no Lupuz a pouco, achei que não faria mal vir te ver.
Lupuz era a lanchonete mais conhecida da cidade. O point dos universitários da região.
Isabel se afastou para a prima entrar e colocar sobre a mesa os vários livros que trazia. E só então percebeu o que a garota acabara de dizer.
-Gaby?
-Sim! - disse a garota enquanto se servia de água.
-Você falou que acabou de ver a Rachel no Lupuz?
-É ué, eu tava saindo de lá e ela chegando. Tava com uma mulher mais velha, que achei que era a mãe dela. Estranho, aquele rosto até me é familiar - disse a menina descontraída.
Isabel sentou-se confusa no sofá. Por que Rachel não lhe diria se viesse a Santa Luzia com a mãe? Por que mentiria pra ela?
-Que cara é essa? - perguntou Gabriela voltando da cozinha - Parece que viu um fantasma!
-Essa mulher que você viu com a Rachel, era loira ou morena?
A garota pensou um pouco.
-Ah, morena. Me lembro até que pensei como os cabelos das duas contrastavam.
Aquilo deixou Isabel ainda mais desconfiada. Não podia ser Beatriz. A mãe de Rachel também era loira.
-Morena e mulata? - perguntou a atacante pensando em Hélen.
-Não, Bel. Morena e de pele branca. Da minha cor ué. Não era negra. Por quê? Você não sabia que ela tava aqui?
Isabel fez que não. O cenho franzido e um o olhar um tanto desconfiado.
-Ela me disse que só podia vir à tarde. Tinha umas coisas pra fazer na livraria. - explicou Isabel - Tem certeza que não confundiu ela com outra pessoa?
Gabriela fez que não.
-Com aquela pele branca, os cabelos loiros e os olhos azuis, Bel? Não tem como confundir. Mas é simples, ué. Liga pra livraria. Pede pra falar com ela. Vai ver que eu me enganei mesmo. - disse a adolescente já se arrependendo de ter comentado qualquer coisa.
Isabel seguiu imediatamente o conselho da prima. Quem atendeu foi Felipe.
-Isabel? Que bom te ouvir. Estou com saudades.
-Eu também to Felipe - disse a garota um tanto impaciente para saudações - Me diz uma coisa, a Rachel ta ai? Preciso falar com ela.
A resposta a fez desabar na cadeira.
-Ah hoje ela não vem, Isabel. Tinha que fazer umas coisas e pediu dispensa desde terça-feira. Só pode ser com ela?
A atacante nem ouviu o fim da frase de Felipe. Desligou o telefone e ficou ali sentada pensando.
-Ela não tá lá? - perguntou Gaby preocupada com a cara da prima.
-Não. Pediu dispensa desde terça-feira, ou seja, quando a gente se falou na quarta-feira à noite, ela mentiu pra mim. - disse a jogadora de vôlei se levantando com raiva. Aquela desconfiança era de matar. O que Rachel estava escondendo dela?
-Faz quanto tempo que você saiu do Lupuz? - perguntou ela para a prima.
-Ah, mais de uma hora. Por quê?
-Porque nós vamos tirar isso a limpo agora! - disse a atacante se vestindo as pressas e pegando as chaves do carro - Não sei por que ela mentiu pra mim, mas espero que tenha uma boa desculpa pra isso!
Gabriela correu atrás da prima que descia as escadas afoita.
-Bel, não faz isso. Ela deve ter uma razão, uma explicação
-Gaby, entra no carro! - disse a outra já com o corpo metade dentro do automóvel.
O tom de voz autoritário fez a garota perceber que era melhor obedecer e não contrariar.
A cara séria e o silêncio enquanto dirigia, mostraram a Gabriela um lado da prima que ela nunca tinha visto. Isabel estava com raiva. Com muita raiva. A garota também estava ficando nervosa e arrependida. Por que comentara que vira Rachel? Mas lhe parecera algo tão comum, que não imaginava que fosse ocasionar tudo aquilo.
Esperava realmente que a levantadora tivesse mesmo uma explicação plausível para aquela mentira. Ou pela fisionomia Isabel, as coisas iam ficar muito ruins e nem ela sabia como poderiam acabar.
Rezando pra que nada saísse do controle, Gaby ficava mais apreensiva à medida que se aproximavam da lanchonete. As mãos suavam e ainda assim estavam geladas. Ao mesmo tempo percebia o semblante cada vez mais carregado de Isabel. Como terminaria tudo aquilo meu Deus? Perguntava-se a todo instante. Ela não sabia e nem queria imaginar. Qualquer perspectiva possível lhe parecia ser mais que angustiante.

Capítulo 35: Quero ser feliz também.....

 

Quando finalmente chegaram à lanchonete, Gabriela respirou aliviada. O carro do qual vira Rachel sair não estava mais lá estacionado. Era quase certeza a levantadora já ter ido embora.
Isabel mal estacionou o automóvel e desceu apressada, entrando na Lupuz tão intempestivamente, que vários cliente se voltaram para ela.
-Algum problema? - perguntou a dona do estabelecimento detrás de um balcão.
A jogadora de vôlei procurou Rachel com o olhar, mas não a encontrou.
-Ela foi embora! - disse ao sentir a prima atrás de si.
-Eu te disse. Faz tempo que eu saí daqui - explicou Gabriela - Vamos voltar pra casa, Bel. Ela vai chegar a tarde e te conta tudo!
-Ainda não! - teimou a atacante se aproximando do balcão. O tom de voz voltou a ser meigo e doce - Bom dia, talvez a senhora possa me ajudar.
A dona da lanchonete sorriu simpática.
-O que você deseja, minha filha?
-Eu estou procurando uma amiga minha. Loira, alta, olhos azuis. Ela esqueceu a carteira com todos os documentos e o celular na minha casa. E eu queria mesmo devolver - inventou Isabel - Minha prima aqui disse que ela esteve aqui mais cedo. Talvez a senhora se lembre dela.
A mulher franziu o cenho, como se estivesse se recordando. Mas depois balançou negativamente a cabeça.
-Não, querida. Não me recordo de ninguém assim. Mas porque você não pergunta para o rapaz que guarda os carros ai em frente? Ele está aqui desde cedo.
Isabel sorriu agradecida.
-Muito obrigada, senhora.
-Bel isso que você tá fazendo é ridículo! - disse Gabriela percebendo a intenção da prima de fala com o flanelinha - Por que não esperamos a Rachel voltar pra casa e explicar tudo?
-Porque se ela mentiu antes, pode mentir de novo - disse Isabel se aproximando do rapaz que guardava os carros.
-Oi! - disse sorrindo.
Ele a olhou desconfiado.
-A dona da lanchonete disse que você está aqui desde cedo.
-Tô sim, por que dona?
-Porque eu me perdi de uma amiga. E preciso encontrá-la. Talvez você a tenha visto, já que ela veio ao Lupuz de manhã. É alta, loira, olhos claros...lembra de alguém assim?
O rapaz pensou um pouco.
-Lembrar eu lembro, dona. Mas vai te custar 5 pratas.
-Cinco pratas por uma informação? - espantou-se Isabel vasculhando o bolso das calças a procura de dinheiro. Na pressa de sair de casa, tinha se esquecido de pegar a bolsa.
Por um milagre, encontrou dois reais num dos bolsos detrás.
-Eu sai de casa apressada, só tenho esse dinheiro - explicou ao rapaz - Me ajude que depois eu passo e me acerto com você!
O flanelinha olhou Isabel atentamente. Parecia não ter gostado muito da idéia, mas acabou cedendo.
-Eu ouvi a mulher comentando com a moça loira algo sobre ginásio, dona! - disse ele e apontando - Foram naquela direção!
-Ginásio? - estranhou Isabel - O que Rachel iria querer um ginásio? E que mulher é essa?
-Isso eu não sei! - disse o rapaz dando de ombros e se afastando da garota.
Gabriela se aproximou da prima.
-Bel, ela pode ter ido para o ginásio da cidade! - disse - Fica na mesma direção que ele apontou.
A atacante pareceu concordar com a prima. Embora não conseguisse perceber o que Rachel iria fazer em um ginásio e ainda mais porque esconderia isso dela, contando aquela mentira deslavada.
-Não deve ser nada com o time da Metropolitana! - raciocinou a garota enquanto dirigia a caminho de tal ginásio - Ela não teria motivo nenhum pra me esconder algo sobre ele.
-Mas senão é algo sobre a equipe de vôlei dela, o que mais poderia ser? - perguntou Gabriela confusa. Pelo menos a prima parecia ter se acalmado mais.
Isabel, contudo, já estava pensando em uma possibilidade que lhe ocorrera de repente. Ela se lembrava de ter visto os olheiros de times importantes na partida em que a Metropolitana fora eliminada. Seria possível que mesmo tendo perdido, Rachel chamara a atenção de algum desses caras? Isso ao menos explicaria o fato dela esconder a ida a um ginásio da própria namorada! Sabia que Isabel não ia gostar da idéia dela jogar vôlei tão longe.
O celular de Gabriela tocou no meio do caminho para o ginásio. Era Roberta querendo saber onde a namorada estava. A garota explicou rapidamente o que estava acontecendo e a futura enfermeira combinou de encontrar as duas no tal ginásio. Conhecendo Isabel como conhecia, melhor estar perto se Rachel estivesse aprontando. Tudo poderia acontecer e ela queria se certificar que a amiga estaria bem.

***
Rachel saiu tão cedo de casa na sexta-feira, que nem tempo de tomar café ela teve. Depois de algumas horas de viagem naqueles ônibus desconfortáveis, a levantadora encontrou Verônica pontualmente às 8h da manhã na porta da casa da treinadora.
-Tenho que comer alguma coisa antes de irmos ao ginásio, Rachel - disse a técnica - Esqueci de fazer o supermercado, acredita?
As duas sorriram.
-Ótimo. Eu também não comi nada ainda, acompanho você.
-Bom, então vamos para o Lupuz. É uma lanchonete, mas eles servem café da manhã também.
A jogadora concordou e por volta de 9h horas da manhã, as duas chegaram a tal lanchonete. Rachel vinha durante todo o caminho pensando se devia ligar para Isabel, mas a idéia de lhe fazer uma surpresa, sempre fazia com que ela desistisse. Queria ver a cara de felicidade da namorada quando esta soubesse que seriam companheiras de novo do mesmo time.
Rachel estava tão distraída conversando com Verônica sobre o time e suas jogadoras, que mal notou a presença de Gabriela saindo da lanchonete e olhando fixamente para ela antes de ganhar a rua.
Depois de muito papo e um excelente café da manhã, ela e a técnica se dirigiam ao carro desta. Iriam para o ginásio. Era chegada a hora do tal teste.
Rachel adorou toda a estrutura que a Estadual disponibilizava para a prática do vôlei. O ginásio era novo, recém reformado e havia todo o material necessário, como bolas, redes, aparelhos para musculação e condicionamento físico, uniformes e departamento médico. Talvez porque o esporte fosse o mais popular da região e a universidade uma das equipes tradicionais, o investimento por parte do governo tinha sido considerável. Não só dele, mas das fundações de ex-alunos que sempre ajudavam a universidade.
O teste que Verônica elaborara contava com a presença dos outros membros da equipe técnica e começaram como medição de altura e peso. A Dra. Carla, médica da equipe da Estadual, aprovara o condicionamento físico de Rachel. A garota estava com um peso ótimo em relação a sua altura.
Depois fizeram alguns exames médicos, os de rotina, para se certificarem da saúde e da capacidade física de Rachel. O ritmo de corrida e cardíaco da levantadora também estavam normais.
A parte final da avaliação consistia na prática do vôlei e para isso Verônica convocara duas jogadoras da equipe, Cíntia e Denise. As duas, o assistente técnico e o preparador físico, testaram a resistência e a habilidade de Rachel na função de levantadora, assim também sua qualidade e recepção, de passe e até de bloqueio.
Sentada no banco da comissão técnica com uma prancheta na mão, Verônica anotava algumas coisas e dava instruções de vez em quando. Depois de mais de uma hora intensa de fundamentos de vôlei, ela se levantou e aproximou-se de Rachel, suada e cansada, naquele momento.
-Eu sempre soube que você se sairia bem Rachel, mas não podia simplesmente colocá-la no time da Estadual - disse ela sorrindo simpática - Você foi aprovada com louvor e vai passar a integrar nossa equipe provisoriamente. No próximo semestre, você se submetera de novo aos testes, como todas as outras candidatas, ok?
Rachel não cabia em si de contentamento. Finalmente ia poder ficar perto de Isabel de novo!
-OK, Verônica! - falou sorrindo de felicidade - Quando posso me apresentar à equipe?
-Vou tratar de tudo para que seja no máximo dentro de uma semana. Você sabe que os atletas na Estadual têm bolsas de estudo não é?
A levantadora fez que sim.
-Como você está provisoriamente no nosso time, não posso dispor pra você de dormitórios. Mas tentarei conseguir a bolsa para pelo menos lhe ajudar com os custos de morar longe de casa.
-Você acha que eu poderia ficar com a Isabel no dormitório da universidade?
Verônica sorriu cúmplice.
-Oficialmente não poderia, mas tenho certeza que para o bem da equipe feminina de vôlei, podemos fazer vistas grossas para isso.
As duas riram e se despediram. Mas feliz do que nunca, Rachel tomou um banho demorado e saiu do ginásio mais que animada. Isabel com certeza adoraria aquela notícia!

***

Isabel e Gabriela encontraram Roberta na porta de entrada do ginásio. Depois dos cumprimentos de praxe, as duas olharam ansiosas para a jogadora de vôlei.
-Dá pra ouvir daqui que tem gente jogando ai dentro, Bel. Você não vai entrar?
A atacante não sabia se devia. Estava com medo que suas suspeitas se confirmassem. Como ela ia viver se Rachel fosse jogar longe dela? Teria o direito de impedi-la ou coloca-se contra? Seu coração dizia que sim, mas a cabeça sabia que não. Que amava a namorada demais para ser tão egoísta.
Por fim, um tanto temerosa, ela resolveu esperar ali mesmo. Se Rachel estivesse ali dentro, teria que sair e ela estava disposta a aguardá-la o quanto fosse preciso.
Gabriela e Roberta decidiram ficar, mesmo que um pouco mais distantes. Ainda não entendiam o que estava acontecendo ali, mas queriam estar perto para apoiar Isabel ou mesmo deter sua ira.
Mais ou menos uma hora depois de uma espera angustiante, as três visualizaram Rachel saindo do ginásio carregando uma mochila. Já trocara de roupa e nada demonstrava que acabara de sair de um teste de vôlei. Aquilo irritou Isabel. Pareceu-lhe que a namorada pensara em tudo para enganá-la. E que sorriso era aquele no rosto? Com certeza era de felicidade! Aquilo deixou a atacante nervosa.
-Isabel?! - surpreendeu-se Rachel ao dar de cara com a namorada encostada no carro a sua espera - O que você tá fazendo aqui?
-Acho que eu que devia te perguntar isso, Rachel! Por que me disse que só podia vir à tarde? A Gaby te viu na cidade em plena manhã!
Rachel olhou chateada para Gabriela. Tinha estragado tudo aquela garota.
-Eu queria te fazer uma surpresa, amor. Por isso não podia dizer a verdade.
-Surpresa, que surpresa? Foi aceita por aqueles times lá do Sul? Pela sua cara de felicidade, é isso que parece!
Foi a vez de Rachel não entender nada.
-Times do Sul? Do que você está falando, Bel?
-Vai dizer que não foi pra fazer um teste com eles que você mentiu pra mim?
A levantadora caiu na gargalhada.
-Claro que não, sua boba! Eu vim fazer o teste para jogar na Estadual com você!
-Os testes da Estadual já passaram, Rachel! - contrapôs Isabel - Só vão haver novos no próximo semestre!
-Eu sei, mas Hélen conseguiu um especial pra mim. Pra eu ficar perto de você.
Aquela estória estava totalmente sem pé nem cabeça. O que Hélen tinha a ver com o teste? Rachel continuava mentindo!
-Amor, não mente pra mim! - pediu Isabel já sentindo a raiva voltar - Só me diz a verdade e eu vou procurar te entender.
Foi a vez de Rachel ficar chateada.
-Eu estou te dizendo a verdade, Isabel! Vim fazer um teste pra jogar no mesmo time que você, pra gente ficar perto. Acabei de ser aprovada nele e você tá me ofendendo por não acreditar em mim!
Nesse momento Cíntia e Denise saíram do ginásio, as duas com mochilas e ainda de tênis.
-O que vocês estão fazendo aqui? Não tem treino hoje! - surpreendeu-se Isabel.
Cíntia sorriu.
-Viemos a pedido de Verônica. Treinar a sua namorada - disse ela apontando para Rachel, naquele momento com a cara pra lá de amarrada e com os braços cruzados.
-Parabéns, menina! Nossa equipe vai ser a mais forte de todos os tempos na LIVU! - disse Denise sorrindo e cumprimentando a levantadora.
Isabel percebeu que se enganara e que a namorada realmente dissera-lhe a verdade. Olhou arrependida para Rachel depois que as companheiras se foram.
-Como eu posso me desculpar com você? - perguntou.
-Eu não sei - disse Rachel - Eu devia estar muito chateada com você!
A atacante sorriu.
-Então você não está?
Foi a vez de Rachel sorrir e abraçar a namorada.
-Me desculpe não ter te contado nada. Era pra ser uma surpresa.
Isabel sorriu.
-Me perdoa ter desconfiado de você. Prometo que não faço mais, amor!
-É bom mesmo viu? Se houver uma próxima vez, não vou te perdoar assim tão rápido.
As duas sorriram e se beijaram. Só então Gabriela e Roberta se aproximaram.
-Tudo certo né? - perguntou Gabriela.
-Uhum! - fizeram as duas - Tudo ótimo agora! Tudo mais que perfeito!

***

Verônica fez como previra e Rachel pôde começar a treinar logo uma semana depois com o time da Estadual. As meninas já a conheciam de outros campeonatos, então não houve tantas apresentações assim.
Marilena não gostou nada de saber que perdera sua atleta principal, mas ela entendia os motivos que fizeram Rachel sair da equipe da Metropolitana.
-Espero que vocês duas sejam muito felizes! - disse sorrindo.
Rachel a abraçou.
-Vamos ser sim. E você e Letícia?
A técnica sorriu.
-Estamos caminhando! - disse misteriosamente.
Os pais da levantadora de início não aprovaram muito a idéia de a filha ir morar em outra cidade. Preocupavam-se em como ela se manteria tão longe de casa. Mas graças à bolsa de estudo e ao emprego que Carmem arranjou para Rachel na Editora, os Alves acabaram achando que era uma ótima oportunidade de amadurecimento para a filha.
A mudança para o dormitório de Isabel foi rápida e apenas a cama de casal deu mais problema para ser acomodada. As duas a fizeram contando com a ajuda de Ed, Hugo, Cacau, Gabriela e Roberta.
Isabel só lamentava ficar longe de sua irmã e de sua mãe. Carmem andava cada vez mais feliz e sorridente, e a garota estava cada vez mais certa de um romance entre ela e Guilherme. Logo, teria que conviver com a realidade de ter um padrasto bem novo e ainda por cima, irmão de sua namorada!
Duda, por sua vez, estava empolgadíssima com a perspectiva de ir para a escola no começo do ano. Claro que entrava no choro quando se lembrava que ficaria longe da mãe, mas cada vez mais falante, ansiava pela amizade dos novos coleguinhas de sala.
Ed, sempre atento aos informes da universidade, informou a Isabel que Malu pedira transferência. A zoação com relação ao vídeo ainda não fora esquecida e ela tinha dificuldade de trabalhar. A Metropolitana a transferira para outro campus a fim de poupá-la de maiores transtornos.
Quanto a Gabriela e Roberta continuavam firmes. Uma ainda louca, bitolando para o vestibular e a outras prestes a concluir se curso de enfermagem.
Hélen fora embora no fim do semestre. Estados Unidos como destino final. Quem sabe voltasse logo? Quem sabe ficasse por lá um tempo. A mulata não sabia. Só queria ‘se encontrar’, como Rachel conseguira ao lado de Isabel.
Para Isabel e Rachel morar junto era algo completamente inédito para ambas e por isso mesmo cheio de descobertas. As manias, os costumes, pouco a pouco iam conhecendo e aprendendo a conviver. Assistiam algumas aulas, almoçavam no campus, treinavam e o mais importante, estavam juntas a maior parte do tempo. Era o que ambas mais queriam no momento. Que fosse permitido o amor que sentiam uma pela outra se manifestar livremente.

***

Isabel estava exultante naquela manhã. Finalmente tinha conseguido o que tanto sonhara quando voltara para a casa de sua mãe. Felicidade. Completinha e com todas as letras a que tinha direito.
Acordara cedo e se deparara com Rachel ali ao seu lado. Dormindo seminua, cabelos loiros espalhados pelo travesseiro, uma fisionomia tranqüila e serena, de quem estava completamente à vontade e feliz.
O que mais ela podia querer? Tinha uma mulher linda que a amava, uma família maravilhosa, um time muito bem entrosado e amigos que a apoiavam sempre que precisava. Sua vida estava perfeita!
Olhou o relógio e viu que já estavam atrasadas.
-Amor, acorda! Já são 8h sabia? - disse ela para Rachel.
A levantadora despertou aos poucos.
-Já? Temos que ir logo, Bel! Ou vamos nos atrasar! - disse a garota se levantando e correndo para o banho.
Pouco tempo depois, as duas no carro de Isabel, a caminho da primeira reunião de família dos Alves e Andrade. Ambas achavam que Carmem e Guilherme iam assumir o romance durante aquele almoço e queriam mesmo estar presentes.
-Amor, liga ai o som - pediu Rachel - Estou tão feliz hoje! Quero ouvir música!
Isabel atendeu ao pedido da namorada e sorriu ao ouvir a música que passava. A mesma que tocara tempos atrás, quando ela fizera aquela mesma viagem, mas não de visita e sim voltando pra casa. E que lhe dera tantas esperanças para os sonhos que queria realizar.
“Cresça independente do que aconteça / Eu não quero que você esqueça / Que eu gosto muito de você / Chego, e sinto o gosto do teu beijo. / É muito mais do que desejo / E da vontade de ficar teu olhar / É forte como a água do mar / Vem me dar novo sentido para viver e canta a noite / Quero ser feliz também, navegar nas águas do teu mar./ Desejar para tudo que vêm flores brancas, paz e Iemanjá.”
-Que foi, Bel? - perguntou Rachel curiosa sobre o riso inesperado da namorada.
A atacante sorriu.
-Nada, anjo. Tava aqui pensando em como essa vida é engraçada.
A garota não pode deixar de pensar que aquilo era mais que uma coincidência. Era um sinal. Um sinal que a busca pelo que tanto procurara, terminara no amor que ela encontrara em Rachel. Ela poderia fazer quantas viagens quisesse, mas já sabia que o seu melhor sonho, já estava ali, ao seu lado!
Mas e o futuro?
Isabel puxou Rachel para si, abraçou e beijou-a.
O futuro ela um mistério. Um mistério que só a elas pertencia e que com certeza desvendariam juntas...


FIM...

 

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